terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Sobre o lazer das mulheres e o carnaval em Joinville/Sc

Lendo a dissertação de mestrado A CIDADE DA ORDEM : TENSÕES SOCIAIS E CONTROLE ( JOINVILLE 1917/1943), de Iara Andrade Costa, encontrei um fragmento emblemático para semana que antecede o carnaval na cidade do prefeito/patrão Udo. É curiosa a permanência em certos aspectos dos anos de 1920 em pleno 2016. 



Enquanto se elogiavam as festas (nota: da colheita e religiosas), que eram raras, mas vividas intensamente ao lado do trabalho e da disciplina, criticava-se, por outro lado, os hábitos do "footing" aos domingos, onde as moças desfilavam "durante a tarde inteira" ao redor das praças centrais, com toalete a rigor e onde não se costumava repetir os trajes .

Para um articulista da época, isto demonstrava a frivolidade das moças e só lhes trazia prejuízo e desdém pois, segundo ele.

... afugentam de si qualquer inclinação séria, que por ventura tenham inspirado para um fim nobre, porque não há rapaz algum, sério e bem intencionado, que não receie unir o seu destino ao de uma jovem, que gosta de exibir-se a ponto de passar horas inteiras, perambulando pelas ruas, numa vadiação inconseqüente, quando podia empregar muito mais a propósito, tempo tão precioso, no preparo e no arranjo do seu lar, do conforto dos seus, aprofundando a sua instrução, ajudando nesses mil pequenos nada, em que uma moça ou uma senhora sempre pode se ocupar, seja qual for a fortuna que Deus a brindou. ...

O importante, e o que se valorizava era o trabalho produtivo. O lazer das cidades brasileiras, como o "footing", o carnaval, onde se "brinca " quatro dias e depois disso a cabeça do trabalhador "anda a roda", era vista como sintoma da desordem. Valorizava-se os bailes públicos por serem mais controlados, tanto na ordem como na harmonia e animação. O corso foi sempre uma tentativa de tornar o carnaval da região mais popular, mas na imprensa sempre apareceu com uma nota de repúdio pelo seu "caráter" de bagunça, desorganização e provocador de acidentes por conta da imprudência dos "foliões ".

A elitização do carnaval de salão, aqui sempre foi uma constante, assim como a queixa de falta de lazeres públicos, principalmente nos finais de semanas chuvosos, quando a tristeza, a "falta do que fazer" imperava na cidade. Em 1928, noticiava-se a ausência de carnaval nas ruas. "Este ano pelo que parece não haverá carnaval de rua com cordões carnavalescos, blocos, ranchos para quebrar as "monotonias " das ruas, pois faltam só dois dias e nada se fala, a não ser nos carnavais de salões que pelo que tudo indica, já é alguma coisa ". II

Os domingos, refletiam a tristeza, onde a "falta do trabalho" rotineiro, levaria a vadiagem, reforçando a idéia de trabalho produtivo, somente o comercial ou industrial. Mas o que parecia mais triste era o retrocesso do lazer, conforme avançava o processo de industrialização e o crescimento da cidade.

Domingo morreu, na tristeza de uma trovoada. (...) Sente-se que nos domingos, todo o encanto da nossa mocidade e toda a alegria do nosso povo expansivo se perde na vastidão das ruas desorientado. Falta-nos um parque, um centro de diversão onde Joinville toda pudesse concentrar-se e viver, numa tarde de domingo as alegrias e as emoções de uma reunião festiva. Antes, Joinville oferecia às tardes, centros de reuniões magníficos, nos seus parques, nos seus jardins, onde ß'eqüentemente orquestras e bandas musicais, punham notas vivas e atraentes de uma arte bem cuidada.
Hoje (...) vir-se-ia que Joinville retrograda. E se não fora a evidência das nossas forças econômicas, manifestadas no comércio e nas indústrias florescentes, crê-lo-íamos fracamente. III

O discurso da cidade maravilhosa, ordeira e laboriosa, trazia ao mesmo tempo, uma preocupação enorme com a outra Joinville, que diretamente proporcional ao seu encantamento e desenvolvimento, descobria-se que além da falta de lazer, tinha-se problemas muito sérios a serem contornados como a mendicância, higiene e saúde, policiamento, habitação, água, instrução, transportes, jogos, etc.

Notas
I – JOÃO DA MATTA Bancando o Chie. Jornal de Joinville. Joinville, 14 de Janeiro de 1924 N. 12 Ano

II - Está chegando a hora !. Jornal de Joinville. Joinville, 16 de Fevereiro de 1928, N. 40, Ano X, p.l


III -  Locais. Jornal de Joinville. Joinville, 21 de Janeiro de 1919, N.09 , Ano I p.2

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