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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Sobre o lazer das mulheres e o carnaval em Joinville/Sc

Lendo a dissertação de mestrado A CIDADE DA ORDEM : TENSÕES SOCIAIS E CONTROLE ( JOINVILLE 1917/1943), de Iara Andrade Costa, encontrei um fragmento emblemático para semana que antecede o carnaval na cidade do prefeito/patrão Udo. É curiosa a permanência em certos aspectos dos anos de 1920 em pleno 2016. 



Enquanto se elogiavam as festas (nota: da colheita e religiosas), que eram raras, mas vividas intensamente ao lado do trabalho e da disciplina, criticava-se, por outro lado, os hábitos do "footing" aos domingos, onde as moças desfilavam "durante a tarde inteira" ao redor das praças centrais, com toalete a rigor e onde não se costumava repetir os trajes .

Para um articulista da época, isto demonstrava a frivolidade das moças e só lhes trazia prejuízo e desdém pois, segundo ele.

... afugentam de si qualquer inclinação séria, que por ventura tenham inspirado para um fim nobre, porque não há rapaz algum, sério e bem intencionado, que não receie unir o seu destino ao de uma jovem, que gosta de exibir-se a ponto de passar horas inteiras, perambulando pelas ruas, numa vadiação inconseqüente, quando podia empregar muito mais a propósito, tempo tão precioso, no preparo e no arranjo do seu lar, do conforto dos seus, aprofundando a sua instrução, ajudando nesses mil pequenos nada, em que uma moça ou uma senhora sempre pode se ocupar, seja qual for a fortuna que Deus a brindou. ...

O importante, e o que se valorizava era o trabalho produtivo. O lazer das cidades brasileiras, como o "footing", o carnaval, onde se "brinca " quatro dias e depois disso a cabeça do trabalhador "anda a roda", era vista como sintoma da desordem. Valorizava-se os bailes públicos por serem mais controlados, tanto na ordem como na harmonia e animação. O corso foi sempre uma tentativa de tornar o carnaval da região mais popular, mas na imprensa sempre apareceu com uma nota de repúdio pelo seu "caráter" de bagunça, desorganização e provocador de acidentes por conta da imprudência dos "foliões ".

A elitização do carnaval de salão, aqui sempre foi uma constante, assim como a queixa de falta de lazeres públicos, principalmente nos finais de semanas chuvosos, quando a tristeza, a "falta do que fazer" imperava na cidade. Em 1928, noticiava-se a ausência de carnaval nas ruas. "Este ano pelo que parece não haverá carnaval de rua com cordões carnavalescos, blocos, ranchos para quebrar as "monotonias " das ruas, pois faltam só dois dias e nada se fala, a não ser nos carnavais de salões que pelo que tudo indica, já é alguma coisa ". II

Os domingos, refletiam a tristeza, onde a "falta do trabalho" rotineiro, levaria a vadiagem, reforçando a idéia de trabalho produtivo, somente o comercial ou industrial. Mas o que parecia mais triste era o retrocesso do lazer, conforme avançava o processo de industrialização e o crescimento da cidade.

Domingo morreu, na tristeza de uma trovoada. (...) Sente-se que nos domingos, todo o encanto da nossa mocidade e toda a alegria do nosso povo expansivo se perde na vastidão das ruas desorientado. Falta-nos um parque, um centro de diversão onde Joinville toda pudesse concentrar-se e viver, numa tarde de domingo as alegrias e as emoções de uma reunião festiva. Antes, Joinville oferecia às tardes, centros de reuniões magníficos, nos seus parques, nos seus jardins, onde ß'eqüentemente orquestras e bandas musicais, punham notas vivas e atraentes de uma arte bem cuidada.
Hoje (...) vir-se-ia que Joinville retrograda. E se não fora a evidência das nossas forças econômicas, manifestadas no comércio e nas indústrias florescentes, crê-lo-íamos fracamente. III

O discurso da cidade maravilhosa, ordeira e laboriosa, trazia ao mesmo tempo, uma preocupação enorme com a outra Joinville, que diretamente proporcional ao seu encantamento e desenvolvimento, descobria-se que além da falta de lazer, tinha-se problemas muito sérios a serem contornados como a mendicância, higiene e saúde, policiamento, habitação, água, instrução, transportes, jogos, etc.

Notas
I – JOÃO DA MATTA Bancando o Chie. Jornal de Joinville. Joinville, 14 de Janeiro de 1924 N. 12 Ano

II - Está chegando a hora !. Jornal de Joinville. Joinville, 16 de Fevereiro de 1928, N. 40, Ano X, p.l


III -  Locais. Jornal de Joinville. Joinville, 21 de Janeiro de 1919, N.09 , Ano I p.2

sábado, 2 de janeiro de 2016

Uma mulher operária, anarquista e atriz.

Na busca de materiais com referência ao anarquismo e o teatro no Brasl, encontrei num blog (perdi o link) um fragmento biográfico de Maria Valverde Silvello. Entre os anos de 1940 e 1950, a operária, atriz e anarquista realizou um trabalho teatral no Centro de Cultura Social. A biografia foi organizada por Edgar Rodrigues para o livro Os Companheiros. volume 4. Editora Insular, Florianópolis, 1997.

Maria Valverde Silvello
Brasileira, operária, anarquista!

Nasceu em Piracicaba no dia 27 de março de 1916. Filha de camponeses com sangue espanhol e italiano, Maria Valverde viveu, trabalhou e casou no interior do Estado de São Paulo com Cecílio Dias Lopes, espanhol, nascido em Granada.

Em resumo biográfico, enviado a pedido do autor a 18 de junho de 1980, Maria Valverde fala da sua descendência: “Meus pais, José Valverde Dias e Angelina Silvello, filhos de colonos, conheceram o trabalho escravo nas fazendas paulistas. Minha mãe nasceu na Fazenda Santo Antônio, de Prudente de Morais, que você cita no seu livro, de onde meus avós tiveram de fugir com os filhos por não suportarem mais os maus tratos do capataz e dos donos da fazenda”.

“Meu pai descendia de espanhóis anticlericais, e apesar de trabalhador do campo recebia regularmente no interior do Estado A Lanterna. Foi também militante do Centro de Cultura Social.”

Em 1939, Maria Valverde e o marido mudaram-se para a Capital. Tinham em mente duas coisas: encontrar trabalho, fixar residência e conviver com os libertários. A Lanterna havia-lhes iluminado o “novo caminho”.

Seu marido, como bom espanhol, criado na Fazenda Pasto Velho, em São Manuel do Paraíso, carregava como Maria Valverde o “gérmen” da rebeldia contra a escravidão no campo e as sementes emancipadoras que A Lanterna lançava no interior do Estado paulista.

Vivia-se o começo da Segunda Guerra Mundial. O movimento anarquista desenvolvia sua atividade clandestinamente. Os militantes mais conhecidos da polícia inquisitorial de Vargas reuniam-se alternadamente em casa de companheiros. O Centro de Cultura Social não tinha sede.

Neste entreato, o casal Maria Valverde-Cecílio fez contato com militantes anarquistas de São Paulo, conhecendo então pessoalmente Edgard Leuenroth, diretor do jornal A Lanterna, começando a participar de reuniões em fins de 1940. O Centro de Cultura Social abria caminho pela via teatral representando peças libertárias e anticlericais.

No ano de 1942, Maria Valverde, sua irmã Angelina Valverde e seu marido Cecílio Dias Lopes passaram a integrar o corpo cênico do Centro, só se afastando da atividade teatral em 1957 por motivos de doença.

Em julho de 1980, pedimos a Maria Valverde que nos falasse de sua participação teatral, e dela recebemos os nomes das seguintes peças em que trabalhou: “Primeiro de Maio”, de Pietro Gori; “Ressonar sem Dormir”, “Madrid”, de Pedro Catalo; “Uma Mulher Diferente”, P. Catalo; “A Sombra”, de Dário Nicodemi; “O Herói e o Viandante”, de P. Catalo; “Insensata”, de P. Catalo; “A Casa dos Milagres”; “Tabu”, de Francisco Xsvoboda; “Nossos Filhos”, de Florêncio Sanches; “Os Mortos” de Florêncio Sanches; “O Feitiço”, de Oduvaldo Viana; “O Coração é um Labirinto”, de P. Catalo; “Como Rola uma Vida”, P. Catalo; “Ciclone”, de W. Somerset Maugham; “O Maluco da Avenida”, de Carlos Arniches; “Está Lá Fora Um Inspetor”, e outras que não recorda. Todas educativas e sociais, encenadas diversas vezes.

Os filhos do casal Cecílio-Maria Valverde também trabalharam em algumas peças, onde se fazia necessário a presença de adolescentes.

Maria Valverde não se limitou a ser atriz, fez parte também do Centro de Cultura, chegando a ocupar cargos em sua diretoria. Participou ainda de festas de congraçamento anarquista em Nossa Chácara e esteve presente em todos os Congressos anarquistas ali realizados, chegando a usar da palavra em nome das mulheres anarquistas.

Maria Valverde, para o autor, foi bem mais do que a colaboradora do Teatro Social e do Centro de Cultura Social com sede na rua Rubino de Oliveira, São Paulo; foi uma excelente amiga, valiosa colaboradora numa pesquisa que produziu mais de meia dúzia de obras de história social por nós publicadas.

Sua casa na rua Cesário Galeno, 430, em Tatuapé, está ligada historicamente a essas obras. Foi pousada, ponto de encontros e local onde colhemos dados sem os quais nosso trabalho ficaria muito pobre. Ali encontrei amizade sincera, ajuda incondicional, honradez!



terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Os festivais operários no Rio de Janeiro pelo informativo Emecê.

A expressão “memória é luta!” cabe muito bem para a proposta do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa, situado no Rio de Janeiro.  Por meio do informativo Emecê, o NPMC realiza um importante trabalho da memória do anarquismo. A pesquisa é possível encontrar no site (aqui) e nos informativos disponibilizados para consulta virtual (aqui).


A edição de agosto de 2009 apresenta um texto sobre os festivais de arte operária nas primeiras décadas do século XX. Segundo o Emecê, os festivais realizaram ações de grande importância por meio do teatro, da música e diferentes manifestações artísticas com objetivo de formação duas gerações de militantes anarquistas e do sindicalismo revolucionário.



Clique aqui e leia o artigo completo Arte e consciência: os festivais operários no Rio de Janeiro”. 

domingo, 27 de dezembro de 2015

Comédia de um ato

A peça "Comédia de um ato" está presente na antologia Contos Anarquistas, vários autores, organizado por Arnoni Prado, Foot Hardman e Claudia Leal, lançado pela Editora Martins Fontes. A antologia apresenta contos, textos em prosa e peças curtas de teatro publicados nos jornais operários e anarquistas brasileiros, entre os anos de 1890-1935. 

Reproduzo a peça curta para estimular a leitura dos escritos das mãos de lutadores/as da classe operária. A literatura (assim como teatro, a educação, a poesia...) eram práticas fundamentais no lazer e na formação de homens e mulheres de todas as idades que não tinham acesso a educação e ao lazer na ordem capitalista do começo do século XX.


COMÉDIA EM UM ATO
GIL
O Estado está sentado em um trono feito de caveiras: empunha o açoite e tem na cabeça a metade de um boné vermelho e metade de uma coroa real. A decoração da sala é rica, mas estúpida... as paredes foram pintadas com sangue; ao pé do trono dorme um chacal que na coleira traz escrito: polícia.
Época, passada e presente.
A ação desenrola-se aqui e além.

CENA I
(O Estado só.)

Eu do alto deste trono em que me acho, empunhando o cetro que Deus me deu, dirijo ao estalido da chibata esta humanidade estúpida e imbecil que para nada mais serve, senão para trabalhar e proporcionar bem-estar a mim e aos meus satélites.

Ah! Quero desfrutá-la, quero tornar-me um Nero, um Júlio César, um Calígula, ou todos reunidos!

E quem me poderá impedir?

Pois não sou o senhor absoluto? A minha vontade não é inatacável? 

Quem é que ignora que tudo é meu, que tudo me pertence?

São meus estes montes, são minhas estas campinas, é minha aquela torrente, e é minha esta humanidade idiota com tudo quanto possui, e aqui ninguém tem o direito de viver sem o meu consentimento.

CENA II
Entra o Clero.)

ESTADO: Quem és tu, o luxuriento fantasma que assim ousas vir à minha presença? Vens de alguma orgia, nesses trajes de dançarina grega e com esse pandeiro na cabeça? Diz-me, a que sexo pertences, és homem ou mulher?

CLERO: Sou o teu braço direito. Sem o meu concurso, há muito que a tua soberania teria desaparecido, e tu para viveres terias que ir plantar batatas, como os demais.

ESTADO: Como assim? Chamo-me Estado.

CLERO: Tu governas, porém sou eu quem atrofia as consciências e que as preparar a fim que humildemente se submetam a serem governadas; para isso tenho espalhado sobre toda a superfície da terra milhões de aves negras, dignos discípulos de Loyola, os quais não obedevem senão às minhas ordens, e não fazem outra coisa a não ser catequizar a plebe para que se resigne a obedecer-te e cumprir à risca as tuas e as minhas ordens; como recompensa a essa obediência passiva, prometo-lhe a glória do além-túmulo, de onde ninguém poderá voltar reclamar coisa alguma.

E quando alguém quer interpretar as coisas diversamente do que lhes ordeno, quando ousam falar em liberdade, igualdade, o punhal do sicário ou as fogueiras do S. Ofício sabem fazê-los calar para sempre.

Tu tens a força que te garante; mas ai de ti se ela compreendesse que não tem obrigação alguma de garantir o bem-estar de outrem, em detrimento próprio; se ela pudesse perceber que, o enquanto te serve de guarda-costas, tu a exploras tanto quanto a plebe (pois que ela é composta na sua maioria de filhos do povo), abadonar-te-ia a ti e aos teus; descansa, porém, que aqui está o clero, pronto a impedir o desenvolvimento intelectual dos teus comandados.

ESTADO: E por que forma?

CLERO: Por meio das escolas das igrejas, dos missionários.
Nas escolas aproveitamos a infância que é fácil de dominar à vossa vontade: incutimos-lhe no espírito que deve obedecer a Deus, à Igreja e ao Governo e convencemo-la de que somos seus superiores, que nos deve obediência, que é por vontade de Deus que o mundo é feito assim, e que nós somos enviados para guiar a humanidade no caminho do dever a fim de que esta possa alcançar o reino do céu.

Essa infância de hoje serão os homens do amanhã que, assim preparados pelo clero, continuarão a prestar-te homenagem e a julgarem-se tuas eternas bestas de carga; para que alguém não se desvie do caminho que lhe traçamos, temos as igrejas com os respectivos confessionários, por meio dos quais sabemos tudo o que se passa e podemos mandar para a fogueira alguma ovelha que entenda pôr o rebanho a perder.

Temos também um Deus bom, justo, caridoso, infalível, que tudo vê e sabe premiar e elevar ao reino dos céus, onde tudo é música, alegria e flores, os que sofrem com resignação as misérias desta vida. Além disso, o povo está convencido de que o nosso Deus também é perveso, sanguinário, mau, dinamiteiro, eterno foguista dos caldeirões dos infernos, onde se diverte a fazer ferver os que não seguem à risca o que lhes manda a santa madre Igreja, da sou ministro pleni-potenciário, com carta-branca para, em nome de um Deus que não conheço nem desejo conhecer, podermos amordaçar as consciências, aterrorizar os francos, suplicar os sábios, estuprar menores e viver à custas de todos esses imbecis, que, com medo de ir visitar o nosso Deus foguista, fazem o que lhes mando, convencidos de ganharem o reino das glórias ou... da estupidez.

Enquanto isso, nós gozamos as delícias da terra e aspiramos a essência dessas beldades peregrinas, traídas pelos salmos cantados ao som das nossas vandálicas gargalhadas, ah! Ah! Ah! Isso até quando essas gargalhadas não se transforarem em riso macabro, enquanto as nossas caveiras não escarnecerem de nós mesmos.

CENA III
(Os mesmo e um desconhecido.)

ESTADO: Quem és tu, oh mísera lesma? Como te atreveste a sair da lama em que vegetas?

CLERO: Sim, como conseguiste vir até aqui?...

ESTADO: Sem que a chibata do mordomo te retalhasse o focinho?

CLERO: E o que é que queres?
O desconhecido fez uma reverência e inclinou-se até ficar de quatro para representar o que é.

DESCONHECIDO: Trim-blim-blim, vai, vai, vai fechar. O burro é o azar. Última quinela! Atucha*, rapaziada! Quem mais joga, menos puxa! Olha o zerinho da Santa Casa... Ninguém ganhou. Atucha de novo, que esta não prestou. Trim, blim, blim... Ao tiro americano, sistema máuser, feito! Feito o joguinho do caipira, quem mais joga menos tira... Coragem, rapaziada! Quem não ganha trepa pau da cocanha e desforra-se! Trim, blim, blim... vai, vai... Prepara... Fecha! Catatrai** fechooo!

(Dirigindo-se aos dois:)

Reverenda Santidade... Sua Excelência o Estado...

ESTADO: Quem és tu, meu arlequim?

CLERO: Quem és tu, meu arlequim?

CLERO (à parte): Quem será essa ave?

DESCONHECIDO: Ora essa! Querem ver que, apesar da minha popularidade, há quem não me conhece?

Pois eu sou o Bicho, o afamado Bicho, o digno continuador da vossa obra...

Tudo quanto tendes posto em prática não chega para reduzir à impotência os vossos súditos; isso de impostos, latim e benzeduras não chega. É necessário o joguinho do bicho; ele, sim, os depena às mil maravilhas: o bichinho impede ao povo de fazer economias, torna-o vadio, velhaco, desmoralizado, perde o crédito, finta a Deus e ao diabo, empenha e vende o que possui, e, quando mais nada tem para jogar, vai aos quintais dos vizinhos e carrega o que lé encontra: roupa, lenha, galinha, tudo lhe serve; e nesse labutar constante não tem tempo de ver o despotismo dos governos, de ver o que fazem os representantes das nações, como se executam as leis e tantas outras coisas.

Já vedes, pois, que graças ao bicho podeis dormir descansados, porque a maioria dos vossos súditos não tem tempo de sindicar o que fazeis, se está realmente separada a Igreja o que fazeis, se está realmente separada a Igreja do Estado, como é que os padres se ocupam de política, por que é que os frades não pagam impostos para darem espetáculos no meio da rua, por que há tanta miséria, por que não há trabalho, por que há tanta ladroeira nos cofres públicos e os culpados passeiam impunes, e os presos em flagrante, réus confessos, são por fim despronunciados. Podeis dormir sossegados o sono da inocência, que o Bicho dá-lhes muito que fazer sem deixar-lhes tempo de se ocuparem de vós. O que eles querem e eu também é poder jogar mesmo nas bardas da lei!

ESTADO: Bravos! Venha de lá um abraço e podes jogar à vontade.
(Abraçam-se os três.)

CENA IV
(Uma voz oculta, cantando:)

A mísera plebe morre de fome,
Por toda parte miséria e peste.
Além só se ouvem ânsias e gritos,
aqui só se vê o azul celeste.

(Com ironia:)

Oh! Torpe matéria!...
Se os triturassem qual pedra bruta
Que foco de miséria irromperia de tais almas corruptas!

(Todos, assustados:)

O que será isto?

CLERO: Ah! É a voz da igualdade que clama contra o nosso despotismo. Vamos, em campo! Todos os meios são bons para sufocá-la. Acendam as fogueiras, preparem os patíbulos!

(Todos:)

Vamos, vamos!

(Saem de braços dados.)
(A mesma voz que se afasta:)

Ah! Vida, vida, incendiada tragédia, transfigurado horror, sonho transfigurado; macabras contorções de lúgubre comédia, que um cérebro de louco houvesse imaginado.

(Desce o pano)

O Despertar, PR, ano I, nº 4, 8 out. 1904.





sábado, 31 de outubro de 2015

Memórias sindicais: Mother Jones

Lendo sobre a história do sindicalismo norte-americano encontrei um artigo sobre Mother Jones. Uma mulher vibrante e lutadora que muitos/as desconhecem. Reproduzo o artigo.


Mother Jones, mãe do sindicalismo norte-americano 
(por Elliot J. Corn)
Descrição: http://www.diplomatique.org.br/interf/spacer.gif
Hoje, Mother Jones parece ter caído no esquecimento. Mas, no início do século XX, ela foi uma das mulheres mais célebres dos Estados Unidos, simbolizando o vigor do movimento operário numa época em que ainda havia um Partido Socialista no país, pelo qual se apresentavam candidatos respeitados
Descrição: http://www.diplomatique.org.br/interf/spacer.gif


“A torrente de aplausos eclodiu e se transformou em tumulto quando uma pequena mulher avançou em direção à tribuna. Com o rosto marcado pela idade, poderia ser a avó de qualquer um; porém, tratava-se da avó de centenas de milhares de mineradores... Ao escutá-la falar, compreende-se sua influência sobre essas hordas poliglotas. Ela tinha a força, o espírito e, sobretudo, a chama da indignação. Ela era o furor divino encarnado.”
´
É assim que o escritor Upton Sinclair, célebre por seu romance sobre os abatedouros de Chicago (The Jungle), descreve Mother Jones. E acrescenta: “Ela contava histórias sem fim de aventuras; das greves lideradas por ela; de seus discursos; das reuniões com os presidentes, governadores e chefes industriais; da prisão e dos campos de prisioneiros. Ela havia percorrido todo o país e, onde estivesse, o fogo do protesto se propagava no coração dos homens. Sua história é uma verdadeira odisseia de revolta”.1As palavras de Sinclair são rigorosamente exatas. Durante 25 anos, essa senhora não teve residência fixa; uma vez, diante do Congresso, explicou: “Da mesma forma que meus sapatos, meu endereço me segue por onde eu for”.

Entre os 60 e os 80 anos, Mother Jones renunciou aos amigos, à família e a seus bens para viver na estrada, com seu povo, e seguir o caminho que as lutas definissem. Esse engajamento indefectível ao lado dos trabalhadores forjou um sentimento de identificação entre os operários: além de ativista sindical ou militante política socialista, ela era considerada a “mãe” dos norte-americanos explorados.

Ao se inteirar de que Mother Jones havia sido detida novamente, um operário da Virgínia Ocidental se dirigiu ao ministro do Trabalho: “Já empunhei minha pistola três vezes durante as guerras industriais deste país e juro diante do Eterno que, se acontecer qualquer coisa com a velha Mãe, não estou nem velho nem frouxo para empunhá-la outra vez”. E A. van Tassel, trabalhador de Ohio, suplicou ao presidente Woodrow Wilson que libertasse o “anjo dos oprimidos”: “Essa bela heroína do movimento operário não cometeu nenhum crime, mas ela é assassinada lentamente ao ser punida cada vez mais por lutar, por agir, por defender a educação e para que os trabalhadores ganhem consciência de sua verdadeira posição na sociedade”, escreveu.2

Há muitos mitos ao redor de Mother Jones – e ela mesma contribuiu para a construção de alguns deles. Ela se apresentava como mais velha do que era, com o objetivo de aumentar seu caráter respeitável. Por exemplo, em sua autobiografia publicada em 1925, ela afirma ter nascido em 1° de maio de 1830, dia da festa dos trabalhadores. Mary Harris – seu verdadeiro nome – veio ao mundo de fato em agosto de 1837, em Cork, Irlanda. Durante a juventude, enfrentou a Grande Fome (1845-1849), o que obrigou sua família a migrar para a América do Norte – mais precisamente para Toronto, onde seu pai encontrou um trabalho de ferroviário e Mary aprendeu os ofícios de costureira e professora. 

Na maioridade, deixou a família e se instalou em Michigan para lecionar. Em seguida, foi para Chicago, antes de mudar-se para Memphis (Tennessee), onde se casou com um caldeireiro sindicalista, George Jones. Dessa união, nasceram quatro filhos, que faleceram junto com o marido, em 1867, durante uma epidemia de febre amarela. Mary entendeu o episódio como uma injustiça social: “As vítimas foram principalmente os pobres e os trabalhadores. Os ricos puderam deixar a cidade ou mudar-se para longe”, constatou.

Viúva, retornou a Chicago, onde trabalhou como costureira durante vinte anos. Nesse período, conheceu militantes políticos e líderes sindicais. A cidade figurava naquele momento como uma das mais radicais dos Estados Unidos, e foi em suas ruas fervilhantes que Mary descobriu seu talento de oradora e sua capacidade de mobilizar multidões.


A invenção de Mary


A dama decidiu então multiplicar seus engajamentos militantes com a organização de cursos de educação política para os trabalhadores sindicalistas, a participação na marcha de desempregados a Washington em 1894, a coordenação da ação de mineradores de antracito na Pensilvânia, entre outras iniciativas. 

Seu ato mais importante, porém, foi inventar a “Mother Jones”. Mary Harris era uma imigrante irlandesa pobre que fugiu da fome; Mary Jones, esposa de um operário, mãe de família e viúva, vivia na pobreza em Chicago; “Mother Jones” seria a “velha Mãe” da classe operária norte-americana.

Esses novos hábitos a transformaram. A nativa de Cork se recusava a ser chamada de Mary e assinava seu novo nome em todas as cartas. Mesmo os homens de negócios e os presidentes dos Estados Unidos a chamavam dessa forma. Atrás de seus velhos vestidos negros e de sua imagem de mulher virtuosa e sábia, Mother Jones dissimulava um vigor físico e oratório incrível. Percorria estradas para participar de encontros políticos, dar assistência e proferir discursos que denunciavam as leis sem limites do mercado; também ridicularizava os ricos para que o povo tomasse consciência de sua própria força e da injustiça de sua condição.

Ela se opunha ao direito de voto das mulheres − considerava-o uma mera distração burguesa − e acreditava que a atenção dispensada às questões eleitorais apenas desviava os trabalhadores dos problemas econômicos: “Os sindicatos devem mobilizar suas mulheres para os problemas da indústria. A política não é apenas empregada da indústria. Os plutocratas ocuparam suas mulheres: eles as ocupam com o voto e com a caridade”,3explica Mother Jones em sua autobiografia.

A “mulher mais perigosa da América”, segundo as palavras de um procurador da Virgínia Ocidental, resistia à polícia, aos detetives particulares, ao Exército; desafiava abertamente as ordens dos juízes, desmoralizava governadores, atacava homens de negócios. E pagou por suas audácias com muitas temporadas na prisão. Assim que saía, Mother Jones reincidia: incentivava operários a se sindicalizar e a interromper o trabalho, além de organizar manifestações com suas esposas que, munidas de vassouras e esponjas, impediam os fura-greves de penetrar nas minas. Mother Jones também colaborou com os revolucionários mexicanos instalados nos Estados Unidos, os prisioneiros políticos da Califórnia e os siderúrgicos do Centro-Oeste do país.

Entre 1890 e 1910, essa figura do movimento operário se engajou em centenas de greves – algumas particularmente violentas –, principalmente ao lado do Sindicato dos Mineiros (United Mine Workers): greve dos mineiros de cobre de Calumet, dos cervejeiros de Milwaukee, dos trabalhadores têxteis de Chicago, entre outras. Também organizou, em 1903, na Filadélfia, uma das primeiras manifestações contra o trabalho infantil; participou da fundação do Partido Socialista dos Estados Unidos em 1901 e do sindicato radical Industrial Workers of the World (IWW), em 1905.

No início do século XX, os trabalhadores norte-americanos conheceram tempos difíceis; o carvão ainda era o principal combustível e o trabalho nas minas ocupava 750 mil homens. Esses mineradores recebiam cerca de US$ 400 por ano, muitas vezes em moeda privada timbrada pela empresa, o que os forçava a viver nas vilas fundadas pelo empregador e, portanto, submetidas a seu controle. Os 500 mil siderúrgicos trabalhavam doze horas por dia, seis dias por semana. Milhões de mulheres e crianças se esgotavam nas usinas e ateliês de costura por alguns centavos.


Radicalidade apurada


Mother Jones alertava para essas condições dramáticas de existência. Em 1901, naInternational Socialist Review, ela descreveu, por exemplo, a vida numa fábrica de algodão: “Crianças de 6 ou 7 anos eram arrancadas da cama às 4h30 da manhã pelo apito do feitor. O café da manhã era singelo: café preto, um pedaço de pão mergulhado no óleo de algodão no lugar de manteiga. Em seguida, esse exército de servos – tanto os grandes como os pequenos – marchava até os muros da indústria, onde começavam a jornada às 5h30 em meio ao barulho ensurdecedor das máquinas que golpeavam essas jovens vidas durante catorze horas todos os dias”. No fim da descrição, uma constatação: “Fora a queda completa do sistema capitalista, não vejo solução possível. E acredito que um pai que vota pela perpetuação do capitalismo é tão mortal quanto se empunhasse uma pistola e assassinasse os próprios filhos”.4

Mother Jones pertence a uma época que viu nascer o socialismo de Eugene Debs e Big Bill Haywood, fundador do IWW; o anarquismo de Emma Goldman; a luta pela libertação de W. E. B. du Bois, o popular jornalista radical de Julius Wayland, editor da publicação socialista Apelo à razão. Perante o peso esmagador das empresas privadas nos Estados Unidos, as ideias desses militantes continuam atuais: mobilizar os norte-americanos por meio dos sindicatos e dos partidos políticos, passando pela rebelião aberta.

É nesse contexto de efervescência social e política que Mother Jones se engajou arduamente na “guerra dos mineradores” da Virgínia Ocidental de 1912-1913 – confronto que deixou pelo menos cinquenta mortos.5Alguns anos mais tarde, no fim da Grande Guerra, sua saúde começou a declinar, assim como suas proezas oratórias. Ela se dedicou então a escrever sua autobiografia. No dia 1° de maio de 1930, seus numerosos simpatizantes acreditaram festejar o centésimo aniversário de Mother Jones – que tinha, na realidade, 93 anos. Seis meses depois, ela faleceu.

Seus amigos a enterraram no cemitério do Sindicato dos Mineradores em Illinois, ao lado dos “militantes valentes” caídos pela causa dos trabalhadores. Milhares de pessoas se reuniram no local para escutar a oração fúnebre do reverendo John Maguire, e outras dezenas de milhares seguiram a transmissão da cerimônia pela WCKL, a rádio operária de Chicago: “Hoje, em suas magníficas mesas de mogno, bem protegidos em capitais longínquas, os proprietários de minas e os capitalistas suspiram aliviados. Hoje, nas planícies de Illinois, nas colinas e vales da Pensilvânia e da Virgínia, na Califórnia, Colorado e Colúmbia Britânica, homens fortes e mulheres esgotadas pelo trabalho derramam lágrimas amargas. A razão é a mesma: Mother Jones está morta”.6

Elliot J. Corn
Professor de história na Universidade Brown e autor de "Mother JOnes: the most dangerous woman in America ( Mother Jones: a mulher mais perigosa da América), Wang and Hill, Nova York, 2001.


1 Upton Sinclair. The coal war [A guerra do carvão]. Boulder: Colorado Associated University Press, 1976.
2 Para encontrar essas diversas cartas, cf. “General records of the department labor, 1907-1942” [Registro geral do Departamento do Trabalho], Arquivo de Chief Clerk, grupo 174, caixa 24, 16/13, e
“Conditions of coal fields in West Virginia” [Condições dos campos de carvão no Oeste da Virgínia], Administração de Arquivos e Registros Nacionais.
3 Mother Jones. The Autobiography of Mother Jones [A autobiografia de  Mother Jones]. Chicago: Charles Kerr, 1925.
4 Mother Jones. Civilization in Southern mills [Civilização nas fábricas do Sul]. International Socialist Review, Chicago, mar. 1901.
5 David A. Corbin. Life, Work, and Rebellion in the Coal Fields: The Southern West Virginia Miners, 1880-1922 [Vida, trabalho e rebelião nos campos de carvão: os mineradores do sudoeste da Virgínia]. Urbana:
University of Illinois Press, 1981.
6 Reverendo John Maguire, Panegyric to Mother Jones [Panegírico a Mother Jones], tirado do boletim semanal da Federação do Trabalho do estado de Illinois, n.16 (37), 1930.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Lembranças de uma greve.

A postagem tem por objetivo lembrar um episódio importante dos/as oprimidos/as no mundo do trabalho nas cidades brasileiras, a greve geral de 1917. No intuito de lembrar, publico um trecho de Edgar Leueroth sobre o terrível episódio da repressão policial contra a luta da classe trabalhadora e um recorte do texto de Nicolina Luiza de Petta. 

Um relato da repressão por Edgard Leueroth, anarquista e editor do Jornal Operário A Plebe.


Edgar no dia da sua prisão na greve geral.

"O enterro dessa vitima da reação foi uma das mais impressionantes demonstrações populares até então verificadas em São Paulo. Partindo o féretro da Rua Caetano Pinto, no Brás, estendeu-se o cortejo, como um oceano humano, por toda a avenida Rangel Pestana até a então Ladeira do Carmo em caminho da Cidade, sob um silencio impressionante, que assumiu o aspecto de uma advertência. Foram percorridas as principais ruas do centro. Debalde a Policia cercava os encontros de ruas. A multidão ia rompendo todos os cordões, prosseguindo sua impetuosa marca até o cemitério. À beira da sepultura revezaram os oradores, em indignadas manifestações de repulsa à reação (…) No regresso do cemitério, uma parte da multidão reuniu-se em comício na Praça da Sé; a outra parte desceu para o Brás, até à rua Caetano Pinto, onde, em frente à casa da família do operário assassinado, foi realizado outro comício.


12 de julho de 1917 – Greve Geral no país por Nicolina Luiza de Petta. (recortes do texto original*).


No dia 12 de julho de 1917, a cidade de São Paulo parou: uma greve geral de cem mil trabalhadores paralisou o trabalho nas fábricas e transportes. Essa foi a greve de maior impacto do movimento operário no país nos primeiros anos da República. No Brasil, greve também era denominada parede, e o movimento grevista denominado paredista. O termo greve como sinônimo de paralisação do trabalho nasceu na França em referencia a Praça Grève, localizada em Paris, onde os operários desempregados reuniam-se na expectativa de serem chamados para trabalhar.

No início do século XX, crescia no Brasil a organização a mobilização dos trabalhadores com o objetivo de conquistar melhorias de vida e trabalho. Em 1903 foi criada a federação das associações de classe (posteriormente Federação Operária do rio de janeiro); em 1905, organizou-se a Federação Operária de São Paulo. Associações semelhantes foram criadas em outros estados brasileiros. Em 1906 foi realizado o 1º Congresso Operário Brasileiro. As greves tornaram-se constantes e, em alguns momentos, amplas e numerosas. Os anos de 1906, 1907, 1912 e 1913 foram de muita ação, assim como o ano de 1919. Os acontecimentos de 1917, porém, marcaram de forma mais profunda a história da luta de classes no Brasil. Esse ano foi de agitação operária, com a eclosão de greves em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraíba, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. No entanto, o movimento mais intenso nas cidades do Rio de Janeiro, então capital federal, e de São Paulo.

Um conjunto de fatores explica o clima de agitação social em 1917. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) levou à diminuição das importações e ao aumento da demanda por produtos nacionais; em 1916, as fábricas brasileiras ampliaram a produção e o número de empregos aumentou. Mas a guerra foi responsável também por um grande aumento no preço dos alimentos. Com os salários estagnados há anos, os trabalhadores não conseguiam suportar a elevação crescente do custo de vida.

Ao longo do primeiro semestre de 1917 ocorreram greves de diversas categorias, a maior parte no Rio de Janeiro. As principais reivindicações dos operários eram: aumento salarial, redução da jornada diária para oito horas, fim do trabalho noturno para mulheres e crianças, liberdade de associação e de manifestação, redução no preço dos aluguéis, melhoria dos transportes públicos.

No mês de Junho, o movimento grevista ganhou força na cidade de São Paulo com a paralisação dos operários do Cotonifício Crespi, aos quais irão se juntar, no início de julho, trabalhadores de outras fábricas têxteis e também de outros setores.


Fonte da imagem aqui.

No dia 9 de julho, segunda-feira, após um confronto com a polícia em frente à fábrica Antarctica Paulista, os operários em greve seguiram para o bairro do Brás para fazer piquete (impedir a entrada de trabalhadores que não aderiram à greve) na porta da fábrica de tecidos Mariângela. No local, cinquenta policiais a cavalo e trinta armados de fuzis tentaram dispersar a multidão; três operários ficaram feridos.

O governo determinou o fechamento da Liga Operária da Mooca, uma atuante organização operária de orientação anarquista, e da Escola Moderna, instituição de ensino libertária, onde estudavam filhos de operários. A alegação foi a de que eram locais de fomento das rebeliões.


Fonte da imagem aqui

Essas ações, vistas como arbitrariedades pelos trabalhadores aumentaram a tensão social. Como resposta, na noite do dia 9, os grevistas criaram o Comitê de Defesa Proletária (CDP), coordenado por Edgar Leuenroth, fundador do  jornal anarquista A Plebe. A orientação política predominante entre os operários em 1917 era o anarquismo. As tarefas do CDP eram difundir as reinvindicações de interesse dos grevistas.

No dia 10, o sapateiro espanhol José Iñeguez Martinez, 21 anos, baleado no confronto do dia anterior, morreu em decorrência do ferimento. O CDP decidiu fazer do enterro do trabalhador um grande movimento contra a ação violenta da polícia. Por intermédio da imprensa operária, o Comitê convocou a população a acompanhar o féretro.

José Iñeguez Martinez. Fonte da imagem aqui

Na manhã da quarta-feira, dia 11, cerca de dez mil pessoas, de acordo com o jornal operário Fanfulha, caminharam junto ao corpo do rapaz por várias ruas de São Paulo. A polícia, previamente informada do trajeto, colocou seu efetivo guardando as ruas, principalmente a Avenida Paulista, onde se localizavam os palacetes da elite paulistana. Após o enterro, o CDP conseguiu reunir cerca de três mil pessoas em um comício na Praça da Sé.

Foram registrados saques a estabelecimentos comerciais trabalhadores em greve apedrejaram fábricas e bondes e invadiram o Moinho Santista.  À tarde, empresários reunidos buscavam uma solução. Alguns, como Jorge Street, proprietário da Companhia Nacional de Tecidos de Juta, entendiam que era preciso ceder e atender parte das reivindicações; outros, como o dono do Cotonifício, Rodolfo Crespi, onde começou a greve, mostravam-se irredutíveis, acreditando que a repressão conseguiria desmobilizar os trabalhadores.

Protesto que acompanhou o corpo do operário José. Fonte da imagem aqui.

Não foi o que aconteceu. No dia 12 a cidade parou: a greve atingiu os trabalhadores da Companhia de Gás e da Light, a companhia de energia elétrica, o que paralisou os bonés, principal meio de transporte público, Tinha início a greve geral. Havia cerca de 100 mil trabalhadores em greve na cidade, em um população estimada em 550 mil habitantes.

Um grupo de jornalistas se ofereceu para intermediar as negociações entre os trabalhadores, representados pelo CDP, e os patrões. Durante três dias – 13, 14 e 15 de julho de 1917 – buscou-se uma solução conciliadora. Na segunda-feira, dia 16, com a garantia de que suas principais reivindicações seriam atendidas, os trabalhadores votaram pelo fim da greve. No dia 17, a cidade começou a voltar ao normal, mas a experiência na capital paulista incentivou paralisações no interior e no litoral do estado e em outras unidades da Federação. A greve geral de 1917 mostrou que já não era possível ignorar a presença do operariado no conjunto de forças sócias em luta no Brasil.

Oficialmente, três pessoas morreram durante o conflito: o sapateiro Martinez, um outro operário e uma menina vítima de bala perdida. Calcula-se, porém, que o número de mortos tenha ficado em torno de uma dezena. (...)



* Texto na íntegra no “Dicionário de datas da história do Brasil, Circe Bittencourt (Organizadora), Editora Contexto, São Paulo. 2007

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Memórias de uma falha.

Texto inspirado no post de Emanuelle Carvalho no blog Chuva Ácida. 

Entre 1997 a 2008 estive envolvido com organização de shows punk-hardcore, especialmente ligado à ética do faça você mesmo. Escrevia zines e mantinha uma pequena distribuidora local de material independentes com discos, cds, zines e livros políticos. Neste cenário tentava inserir o debate dos direitos humanos. Eu não estava sozinho, amigos e amigas pegavam juntos.


Entre algumas pessoas existia a ideia de criar uma cena com uma identidade comunitária, troca de informação, acolhimento, ativismo anti-capitalismo e música. A ideia não se concretizou.  Os shows eram temáticos, como dia mundial contra o Mc`Donalds, contra o racismo, machismo, homofobia ou contra a guerra do Iraque. Também aconteciam como um espaço de lazer e diversão. Afinal, uma parcela da juventude de classe média e trabalhadora não se encaixava pra colar na Mansão Getúlio, no Coração Melão ou na Metrô.


Na ocasião éramos atacados pelo Estado, que volta e meia fechava os locais shows por conta da falta de documentação ou por reclamações do volume do som. Os ataques também aconteciam de setores do “rock underground” que insistiam em dizer “o meu movimento é a música. foda-se a política” ou “ estes caras são bando de viados”. Estes críticos não percebiam que entre nós os preconceitos estavam presentes, assim como a prepotência e arrogância. O que nos diferenciava era que no rolê existia um ambiente arejado para debater, acusar e até mesmo julgar.



A galera cresceu, uns deixaram claro que o rolê era uma fase da juventude. Outros continuaram a ouvir a música e seguir a sua vida de adulto, também tem os que ficaram presos à imagem. Outros são uns bandos de nostálgicos de algo que não se concretizou. Não posso de esquecer os que adotaram o cinismo ou a adoração ao capital.




Volto dizer: não era um ambiente completamente arejado. No máximo era uma janela para mundo que impõe cercas. Em 2015, o que se tem é um enorme vazio para uma parcela da juventude e dos adultos que não se encaixam e não aceitam os preconceitos no “rock underground” . A falha foi não ter acumulado politicamente com intuito de realizar uma continuidade.