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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

O grande jogo, de Alexander Berkman


A peça “O grande jogo”, de Alexander Berkman*, traduzida por Natalia Montebello e publicada na Revista Verve, número 14, em 2008.


Berkman e Emma Goldman em 1917


O grande jogo, de Alexander Berkman

Personagens:
Eu (industriais e capitalistas)
Você (operários)
Negra Figura (Lei)

(Abrem-se as cortinas)

Eu ― Desçam ao interior da terra. Tragam a luz o
carvão e o ouro, o ferro, a prata e as pedras preciosas.

Você ― Considere feito.

Eu ― Construam fabricas e maravilhosas ferramentas
e modelem o mundo em jubilo e beleza.

Você ― Considere feito.

Eu ― Muito bem, meus homens. Maravilhoso! Quanta
abundancia! Quantas riquezas! Todas minhas.
Algumas vozes ― Suas? Por que? Nos fizemos tudo!

(Comoção no palco)

Mais vozes (enfurecidas) ― São nossas! Nos as fizemos.

Eu ― Silencio! Eu não mandei que o fizessem?

Vozes ― Mas e nosso. Nos o fizemos.

Eu ― Chamemos a Lei!

(Entra a Negra Figura, vestida de preto, levando uma
Bíblia em uma mão, a espada desembainhada na outra.
As duas mãos com luvas)

(Um silêncio solene quando fala a Lei)

Negra Figura ― E seu. Assim está decretado. A integridade
de nossas justas e livres instituições deve ser
mantida.

(Todos reverentemente ajoelham-se diante da Negra
Figura)

(Sai a Negra Figura)

Eu (orgulhosamente jubiloso) ― E meu, por Lei.

Você ― Nos somos pobres. Nossas esposas precisam
de comida, nossas crianças tem fome.

Eu ― Eu darei a vocês as coisas de que precisam.

Você ― Nos de! Nos de!

Eu ― Em troca de mais trabalho. Venderei as coisas
que vocês fazem e lhes darei um salario por isso.

Você ― Salários! Bons salários?

Eu ― Sim, um salario justo.

Você ― Tome, tome! Um salario justo!

Eu ― Entregarei a vocês comida e roupa em troca de
seus salários.

Você ― Um amo carinhoso! Tome, pegue nossos salários!
(Eu pega os salários e entrega escassas rações de
comida)
(Você, depois de ter devorado a comida, em pé com as
mãos vazias, com semblante satisfeito)

Eu (com profunda auto-satisfacao) ― A indústria e a
economia são a coluna vertebral de nossa grande prosperidade
nacional.

Você ― Mas nos não obtivemos nada.

Eu ― Elejam-me para o ministério e aprovarei uma
lei para abrir cozinhas populares para aqueles dentre
vocês que merecerem minha generosidade.

Você ― Viva! Viva! Nosso candidato!

(Um desfile com tochas)

(Fecham-se lentamente as cortinas)

Notas:
1 The Blast, San Francisco, Estados Unidos, 29 de janeiro de 1916.

* Imigrante russo que se tornou proeminente anarquista nos EUA. Cometeu um atentado contra um industrial durante uma greve operária e passou 14 anos na prisão. Em 1919, devido a contundentes manifestações contra a guerra,foi deportado para a Rússia junto com vários anarquistas, inclusive Emma Goldman, sua companheira na vida amorosa e política. Depois de dois anos,deixaram o país e lideraram a crítica libertária aos rumos autoritários da Revolução Russa e das ações do Partido Comunista. Gravemente doente, Berkman morreu aos 66 anos, na França, em 1936.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Uma mulher operária, anarquista e atriz.

Na busca de materiais com referência ao anarquismo e o teatro no Brasl, encontrei num blog (perdi o link) um fragmento biográfico de Maria Valverde Silvello. Entre os anos de 1940 e 1950, a operária, atriz e anarquista realizou um trabalho teatral no Centro de Cultura Social. A biografia foi organizada por Edgar Rodrigues para o livro Os Companheiros. volume 4. Editora Insular, Florianópolis, 1997.

Maria Valverde Silvello
Brasileira, operária, anarquista!

Nasceu em Piracicaba no dia 27 de março de 1916. Filha de camponeses com sangue espanhol e italiano, Maria Valverde viveu, trabalhou e casou no interior do Estado de São Paulo com Cecílio Dias Lopes, espanhol, nascido em Granada.

Em resumo biográfico, enviado a pedido do autor a 18 de junho de 1980, Maria Valverde fala da sua descendência: “Meus pais, José Valverde Dias e Angelina Silvello, filhos de colonos, conheceram o trabalho escravo nas fazendas paulistas. Minha mãe nasceu na Fazenda Santo Antônio, de Prudente de Morais, que você cita no seu livro, de onde meus avós tiveram de fugir com os filhos por não suportarem mais os maus tratos do capataz e dos donos da fazenda”.

“Meu pai descendia de espanhóis anticlericais, e apesar de trabalhador do campo recebia regularmente no interior do Estado A Lanterna. Foi também militante do Centro de Cultura Social.”

Em 1939, Maria Valverde e o marido mudaram-se para a Capital. Tinham em mente duas coisas: encontrar trabalho, fixar residência e conviver com os libertários. A Lanterna havia-lhes iluminado o “novo caminho”.

Seu marido, como bom espanhol, criado na Fazenda Pasto Velho, em São Manuel do Paraíso, carregava como Maria Valverde o “gérmen” da rebeldia contra a escravidão no campo e as sementes emancipadoras que A Lanterna lançava no interior do Estado paulista.

Vivia-se o começo da Segunda Guerra Mundial. O movimento anarquista desenvolvia sua atividade clandestinamente. Os militantes mais conhecidos da polícia inquisitorial de Vargas reuniam-se alternadamente em casa de companheiros. O Centro de Cultura Social não tinha sede.

Neste entreato, o casal Maria Valverde-Cecílio fez contato com militantes anarquistas de São Paulo, conhecendo então pessoalmente Edgard Leuenroth, diretor do jornal A Lanterna, começando a participar de reuniões em fins de 1940. O Centro de Cultura Social abria caminho pela via teatral representando peças libertárias e anticlericais.

No ano de 1942, Maria Valverde, sua irmã Angelina Valverde e seu marido Cecílio Dias Lopes passaram a integrar o corpo cênico do Centro, só se afastando da atividade teatral em 1957 por motivos de doença.

Em julho de 1980, pedimos a Maria Valverde que nos falasse de sua participação teatral, e dela recebemos os nomes das seguintes peças em que trabalhou: “Primeiro de Maio”, de Pietro Gori; “Ressonar sem Dormir”, “Madrid”, de Pedro Catalo; “Uma Mulher Diferente”, P. Catalo; “A Sombra”, de Dário Nicodemi; “O Herói e o Viandante”, de P. Catalo; “Insensata”, de P. Catalo; “A Casa dos Milagres”; “Tabu”, de Francisco Xsvoboda; “Nossos Filhos”, de Florêncio Sanches; “Os Mortos” de Florêncio Sanches; “O Feitiço”, de Oduvaldo Viana; “O Coração é um Labirinto”, de P. Catalo; “Como Rola uma Vida”, P. Catalo; “Ciclone”, de W. Somerset Maugham; “O Maluco da Avenida”, de Carlos Arniches; “Está Lá Fora Um Inspetor”, e outras que não recorda. Todas educativas e sociais, encenadas diversas vezes.

Os filhos do casal Cecílio-Maria Valverde também trabalharam em algumas peças, onde se fazia necessário a presença de adolescentes.

Maria Valverde não se limitou a ser atriz, fez parte também do Centro de Cultura, chegando a ocupar cargos em sua diretoria. Participou ainda de festas de congraçamento anarquista em Nossa Chácara e esteve presente em todos os Congressos anarquistas ali realizados, chegando a usar da palavra em nome das mulheres anarquistas.

Maria Valverde, para o autor, foi bem mais do que a colaboradora do Teatro Social e do Centro de Cultura Social com sede na rua Rubino de Oliveira, São Paulo; foi uma excelente amiga, valiosa colaboradora numa pesquisa que produziu mais de meia dúzia de obras de história social por nós publicadas.

Sua casa na rua Cesário Galeno, 430, em Tatuapé, está ligada historicamente a essas obras. Foi pousada, ponto de encontros e local onde colhemos dados sem os quais nosso trabalho ficaria muito pobre. Ali encontrei amizade sincera, ajuda incondicional, honradez!



terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Os festivais operários no Rio de Janeiro pelo informativo Emecê.

A expressão “memória é luta!” cabe muito bem para a proposta do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa, situado no Rio de Janeiro.  Por meio do informativo Emecê, o NPMC realiza um importante trabalho da memória do anarquismo. A pesquisa é possível encontrar no site (aqui) e nos informativos disponibilizados para consulta virtual (aqui).


A edição de agosto de 2009 apresenta um texto sobre os festivais de arte operária nas primeiras décadas do século XX. Segundo o Emecê, os festivais realizaram ações de grande importância por meio do teatro, da música e diferentes manifestações artísticas com objetivo de formação duas gerações de militantes anarquistas e do sindicalismo revolucionário.



Clique aqui e leia o artigo completo Arte e consciência: os festivais operários no Rio de Janeiro”. 

domingo, 27 de dezembro de 2015

Comédia de um ato

A peça "Comédia de um ato" está presente na antologia Contos Anarquistas, vários autores, organizado por Arnoni Prado, Foot Hardman e Claudia Leal, lançado pela Editora Martins Fontes. A antologia apresenta contos, textos em prosa e peças curtas de teatro publicados nos jornais operários e anarquistas brasileiros, entre os anos de 1890-1935. 

Reproduzo a peça curta para estimular a leitura dos escritos das mãos de lutadores/as da classe operária. A literatura (assim como teatro, a educação, a poesia...) eram práticas fundamentais no lazer e na formação de homens e mulheres de todas as idades que não tinham acesso a educação e ao lazer na ordem capitalista do começo do século XX.


COMÉDIA EM UM ATO
GIL
O Estado está sentado em um trono feito de caveiras: empunha o açoite e tem na cabeça a metade de um boné vermelho e metade de uma coroa real. A decoração da sala é rica, mas estúpida... as paredes foram pintadas com sangue; ao pé do trono dorme um chacal que na coleira traz escrito: polícia.
Época, passada e presente.
A ação desenrola-se aqui e além.

CENA I
(O Estado só.)

Eu do alto deste trono em que me acho, empunhando o cetro que Deus me deu, dirijo ao estalido da chibata esta humanidade estúpida e imbecil que para nada mais serve, senão para trabalhar e proporcionar bem-estar a mim e aos meus satélites.

Ah! Quero desfrutá-la, quero tornar-me um Nero, um Júlio César, um Calígula, ou todos reunidos!

E quem me poderá impedir?

Pois não sou o senhor absoluto? A minha vontade não é inatacável? 

Quem é que ignora que tudo é meu, que tudo me pertence?

São meus estes montes, são minhas estas campinas, é minha aquela torrente, e é minha esta humanidade idiota com tudo quanto possui, e aqui ninguém tem o direito de viver sem o meu consentimento.

CENA II
Entra o Clero.)

ESTADO: Quem és tu, o luxuriento fantasma que assim ousas vir à minha presença? Vens de alguma orgia, nesses trajes de dançarina grega e com esse pandeiro na cabeça? Diz-me, a que sexo pertences, és homem ou mulher?

CLERO: Sou o teu braço direito. Sem o meu concurso, há muito que a tua soberania teria desaparecido, e tu para viveres terias que ir plantar batatas, como os demais.

ESTADO: Como assim? Chamo-me Estado.

CLERO: Tu governas, porém sou eu quem atrofia as consciências e que as preparar a fim que humildemente se submetam a serem governadas; para isso tenho espalhado sobre toda a superfície da terra milhões de aves negras, dignos discípulos de Loyola, os quais não obedevem senão às minhas ordens, e não fazem outra coisa a não ser catequizar a plebe para que se resigne a obedecer-te e cumprir à risca as tuas e as minhas ordens; como recompensa a essa obediência passiva, prometo-lhe a glória do além-túmulo, de onde ninguém poderá voltar reclamar coisa alguma.

E quando alguém quer interpretar as coisas diversamente do que lhes ordeno, quando ousam falar em liberdade, igualdade, o punhal do sicário ou as fogueiras do S. Ofício sabem fazê-los calar para sempre.

Tu tens a força que te garante; mas ai de ti se ela compreendesse que não tem obrigação alguma de garantir o bem-estar de outrem, em detrimento próprio; se ela pudesse perceber que, o enquanto te serve de guarda-costas, tu a exploras tanto quanto a plebe (pois que ela é composta na sua maioria de filhos do povo), abadonar-te-ia a ti e aos teus; descansa, porém, que aqui está o clero, pronto a impedir o desenvolvimento intelectual dos teus comandados.

ESTADO: E por que forma?

CLERO: Por meio das escolas das igrejas, dos missionários.
Nas escolas aproveitamos a infância que é fácil de dominar à vossa vontade: incutimos-lhe no espírito que deve obedecer a Deus, à Igreja e ao Governo e convencemo-la de que somos seus superiores, que nos deve obediência, que é por vontade de Deus que o mundo é feito assim, e que nós somos enviados para guiar a humanidade no caminho do dever a fim de que esta possa alcançar o reino do céu.

Essa infância de hoje serão os homens do amanhã que, assim preparados pelo clero, continuarão a prestar-te homenagem e a julgarem-se tuas eternas bestas de carga; para que alguém não se desvie do caminho que lhe traçamos, temos as igrejas com os respectivos confessionários, por meio dos quais sabemos tudo o que se passa e podemos mandar para a fogueira alguma ovelha que entenda pôr o rebanho a perder.

Temos também um Deus bom, justo, caridoso, infalível, que tudo vê e sabe premiar e elevar ao reino dos céus, onde tudo é música, alegria e flores, os que sofrem com resignação as misérias desta vida. Além disso, o povo está convencido de que o nosso Deus também é perveso, sanguinário, mau, dinamiteiro, eterno foguista dos caldeirões dos infernos, onde se diverte a fazer ferver os que não seguem à risca o que lhes manda a santa madre Igreja, da sou ministro pleni-potenciário, com carta-branca para, em nome de um Deus que não conheço nem desejo conhecer, podermos amordaçar as consciências, aterrorizar os francos, suplicar os sábios, estuprar menores e viver à custas de todos esses imbecis, que, com medo de ir visitar o nosso Deus foguista, fazem o que lhes mando, convencidos de ganharem o reino das glórias ou... da estupidez.

Enquanto isso, nós gozamos as delícias da terra e aspiramos a essência dessas beldades peregrinas, traídas pelos salmos cantados ao som das nossas vandálicas gargalhadas, ah! Ah! Ah! Isso até quando essas gargalhadas não se transforarem em riso macabro, enquanto as nossas caveiras não escarnecerem de nós mesmos.

CENA III
(Os mesmo e um desconhecido.)

ESTADO: Quem és tu, oh mísera lesma? Como te atreveste a sair da lama em que vegetas?

CLERO: Sim, como conseguiste vir até aqui?...

ESTADO: Sem que a chibata do mordomo te retalhasse o focinho?

CLERO: E o que é que queres?
O desconhecido fez uma reverência e inclinou-se até ficar de quatro para representar o que é.

DESCONHECIDO: Trim-blim-blim, vai, vai, vai fechar. O burro é o azar. Última quinela! Atucha*, rapaziada! Quem mais joga, menos puxa! Olha o zerinho da Santa Casa... Ninguém ganhou. Atucha de novo, que esta não prestou. Trim, blim, blim... Ao tiro americano, sistema máuser, feito! Feito o joguinho do caipira, quem mais joga menos tira... Coragem, rapaziada! Quem não ganha trepa pau da cocanha e desforra-se! Trim, blim, blim... vai, vai... Prepara... Fecha! Catatrai** fechooo!

(Dirigindo-se aos dois:)

Reverenda Santidade... Sua Excelência o Estado...

ESTADO: Quem és tu, meu arlequim?

CLERO: Quem és tu, meu arlequim?

CLERO (à parte): Quem será essa ave?

DESCONHECIDO: Ora essa! Querem ver que, apesar da minha popularidade, há quem não me conhece?

Pois eu sou o Bicho, o afamado Bicho, o digno continuador da vossa obra...

Tudo quanto tendes posto em prática não chega para reduzir à impotência os vossos súditos; isso de impostos, latim e benzeduras não chega. É necessário o joguinho do bicho; ele, sim, os depena às mil maravilhas: o bichinho impede ao povo de fazer economias, torna-o vadio, velhaco, desmoralizado, perde o crédito, finta a Deus e ao diabo, empenha e vende o que possui, e, quando mais nada tem para jogar, vai aos quintais dos vizinhos e carrega o que lé encontra: roupa, lenha, galinha, tudo lhe serve; e nesse labutar constante não tem tempo de ver o despotismo dos governos, de ver o que fazem os representantes das nações, como se executam as leis e tantas outras coisas.

Já vedes, pois, que graças ao bicho podeis dormir descansados, porque a maioria dos vossos súditos não tem tempo de sindicar o que fazeis, se está realmente separada a Igreja o que fazeis, se está realmente separada a Igreja do Estado, como é que os padres se ocupam de política, por que é que os frades não pagam impostos para darem espetáculos no meio da rua, por que há tanta miséria, por que não há trabalho, por que há tanta ladroeira nos cofres públicos e os culpados passeiam impunes, e os presos em flagrante, réus confessos, são por fim despronunciados. Podeis dormir sossegados o sono da inocência, que o Bicho dá-lhes muito que fazer sem deixar-lhes tempo de se ocuparem de vós. O que eles querem e eu também é poder jogar mesmo nas bardas da lei!

ESTADO: Bravos! Venha de lá um abraço e podes jogar à vontade.
(Abraçam-se os três.)

CENA IV
(Uma voz oculta, cantando:)

A mísera plebe morre de fome,
Por toda parte miséria e peste.
Além só se ouvem ânsias e gritos,
aqui só se vê o azul celeste.

(Com ironia:)

Oh! Torpe matéria!...
Se os triturassem qual pedra bruta
Que foco de miséria irromperia de tais almas corruptas!

(Todos, assustados:)

O que será isto?

CLERO: Ah! É a voz da igualdade que clama contra o nosso despotismo. Vamos, em campo! Todos os meios são bons para sufocá-la. Acendam as fogueiras, preparem os patíbulos!

(Todos:)

Vamos, vamos!

(Saem de braços dados.)
(A mesma voz que se afasta:)

Ah! Vida, vida, incendiada tragédia, transfigurado horror, sonho transfigurado; macabras contorções de lúgubre comédia, que um cérebro de louco houvesse imaginado.

(Desce o pano)

O Despertar, PR, ano I, nº 4, 8 out. 1904.





quinta-feira, 23 de julho de 2015

Uma carta de 1871

Eu tenho uma curta experiência com teatro. Não tenho formação acadêmica, somente cursos e leituras avulsas. Entre um trabalho e outro, tomei conhecimento da Carta aos Artistas de Paris, escrita pelo pintor Gustave Coubert, em 19 de março de 1871, na emblemática revolta popular de Paris, a Comuna. A carta de Coubert fala do seu contexto histórico, é claro. Porém, não é possível deixar de considerar que toca pontos silenciados pela classe artística contemporânea. Deixo com você, caro leitor e leitora, a carta de Coubert.


“Paris, 18 de março de 1871

Meus queridos companheiros artistas,


Vocês me deram a honra, em sua reunião, de me indicar seu presidente. Eu os estou convocando aqui, em nome do comitê que foi designado a auxiliar-me, para reportar-lhes sobre nossas fiscalizações e nossas ações. Aproveitaremos também esse encontro para apresentar diversas idéias que surgiram durante o exercício de nossas atividades, em uma proposta para uma nova reorganização da Administração das Belas Artes, que tem como objetivo promover a Exposição e os interesses das artes e dos artistas.


As administrações anteriores que governaram a França quase destruíram a arte sob sua proteção, ao suprimir sua espontaneidade. Essa abordagem feudal, sustentada por um governo despótico e discricionário, não produziu nada além de arte aristocrática e teocrática, justamente o oposto das tendências modernas, de nossas necessidades, de nossa filosofia, e da revelação do homem manifestando sua individualidade e sua independência física e moral. Hoje, numa época em que a democracia deve reger todas as coisas, seria ilógico a arte, que conduz o mundo, ficar para trás na revolução que está ocorrendo agora na França.



Para alcançar esse objetivo, discutiremos em uma assembléia de artistas os planos, projetos e idéias que nos serão submetidos, no intuito de realizar uma nova reorganização da arte e de seus interesses materiais.



Não há dúvidas que o governo não deve tomar a dianteira em questões públicas, pois não é capaz de carregar em seu interior o espírito de uma nação; consequentemente, qualquer proteção será em si mesma prejudicial. As academias e o Instituto, que apenas promovem a arte convencional e banal, para que sejam julgados por seus integrantes, opõem-se necessária e sistematicamente a novas criações da mente humana e infligem a morte de mártires em todos os homens inventivos e talentosos, em detrimento de uma nação e para a glória de uma tradição e doutrina estéreis.



Vejam, por exemplo, o caso deplorável da École des Beaux-Arts, favorecida e subsidiada pelo governo. Essa escola não apenas desvia nossos jovens, mas nos priva da arte francesa, com suas finas procedências, favorecendo, sobretudo, a tradição túrgida e religiosa italiana, que vai de encontro ao espírito da nossa nação. Essas condições podem apenas perpetuar a arte pela arte e a produção de trabalhos estéreis, sem caráter ou convicção, enquanto nos privam de nossa própria história e espírito sem qualquer compensação.



Portanto, para tomarmos decisões sobre bases mais racionais e mais adequadas aos nossos interesses comuns, no intuito de abolir os privilégios, as falsas distinções que estabelecem entre nós hierarquias perniciosas e ilusórias, é desejável que os artistas (como nas províncias e em todos os países vizinhos) definam seu próprio curso. Deixe que eles determinem como farão as exposições; deixe que definam a composição dos comitês; deixe que obtenham o local onde será a próxima exposição. Isso pode ser resolvido até 15 de maio, pois é urgente que todos os franceses comecem a ajudar o país a se salvar de um imenso cataclismo.



É impossível que qualquer artista não tenha um ou dois trabalhos que ainda não tenham sido exibidos. Para os demais, chamaremos artistas estrangeiros. Excluiremos, certamente, os artistas alemães, mesmo que isso seja contrário aos princípios da descentralização e solidariedade. Mas os alemães, após terem se beneficiado de aquisições francesas e comissões por tanto tempo sem reciprocidade, nos obrigam, por sua traição e espionagem, a tomar tal atitude nesse momento.



O local de encontro será anunciado em breve, bem com o as propostas a serem submetidas aos artistas.



Saudações fraternais,



G. Courbet”

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Adeus classe média

A dramaturgia "Adeus classe média" é uma brincadeira que realizei com estudantes de uma escola pública. Aproveitei a ida do professor e escritor Alberto Ferreira para uma atividade de literatura. Então, tentei adaptar sem nenhuma atividade com pretensão artística. A meninada leu, uns gostaram, a maioria achou chato. Eu deixei duas notas que pede para melhorar o texto, pois na leitura ficou truncada. 

ADEUS CLASSE MÉDIA[i]

João Pedro, Cristina e seu Guilherme

CENA 01

João Pedro está com o rosto grudado no rádio  para saber o resultado da loteria. No fundo da cena, Cristina realiza os serviços domésticos e mantém um olhar de reprovação para João Pedro. O elenco que não está na cena ficará sentado a direito da cena.

Cristina (olha pra plateia): Agora está com essa mania. É chegar do trabalho, que começa beber. Parece que tá com o demonho no corpo. (olha pro céu) Deus me livre.

João Pedro (concentrado no rádio): É hoje, muiê...

Cristina: ele dessa mania de beber, jogar....

João Pedro (cantarola a música do Engenheiros do Hawaii): “...ando só/como um pássaro voando/ando só/como se voasse em bando/ando só/pois só eu sei andar/sem saber até quando/ando só...”

Cristina: Vai canta, canta essas músicas do demonho. É melhor acordar. Já tem 20 anos que você chegou aqui. Não é mais sozinho. Você tem eu e tem Deus. Anda só, que nada.

João Pedro: Ganhamos, ganhamos... Meu Deus do céu. Ganhamos! Olha, Cristina, vem ver. Me ajuda a conferir que eu to tremendo. Meus Deus do céu. Ganhamos! Vai, escuta aqui, vai repetir, escuta se é isso mesmo!

Cristina: Ganhamos, ganhamos... Meu Deus do céu. Ganhamos!
O casal se abraça. João Pedro vai beijar Cristina.

Cristina: Não é pra tanto, ainda mais com esse bafo de cachaça

João Pedro: Nem à noite?

Cristina: Vou pensar...

João Pedro: (Cantarola) Hey mãe, eu vou comprar uma guitarra elétrica...

Cristina: Tú não tem mais (Olha para o céu, como se estive reproduzindo uma fala divina) idade pra isso. Louvado seja Jesus, agora vou poder descansar dessa vida ingrata.

João Pedro: (Fala com convicção) E eu, nunca mais trabalho na vida. Cristina, nunca mais! Eu vou é cantar uns rocks por aí.... sabe, eu vou é mandar aquele desgraçado...

Cristina: ...Que desgraçado?

João Pedro: o patrão! Eu vou mandar pra p....

Cristina: Homem, tenha um pouco de respeito.

João Pedro: Eu vou chegar no serviço e gritar (grita bem alto) Sai de mim seu demonho!!!

Cristina: (olha ao céu) Deus perdoa esse homem.

João Pedro: E os puxa saco (Pausa, vai o rosto expressa que formula uma ideia muito engenhosa e vingativa) deuzomelivre.

Cristina: Vamos morar numa casa com piscina João. Meu sonho! Quero ver essas vizinhas fofoqueiras de queixo caído, e eu vou convidar só uma vez, hein! Vou convidar elas para irem a nossa casa nova, dar um chazinho e uns quitutes iguais da casa da patroa e depois mando embora, para nunca mais voltarem. (O trecho precisa de mais fluidez na hora de ganhar a “embocadura”. O texto precisa melhorar)

João Pedro: E eu vou comprar um carro novinho, zerinho. Oficina mecânica? Nunca mais! Um carrão com um som de arrepiar, como dos guris que ficam na ponte...

Cristina: Mas tu não tem mais idade pra isso...

João Pedro: Vou até a casa da minha mãe, pegar a estrada por 12 horas para mostrar que venci na vida. Adeus zarcão! Adeus vida de mecânico em concessionária! Adeus carro velho! (olha pro público) Adeus dessa classe de fodidos e mal pagos.

Cristina: Louvado seja Jesus.

João Pedro: Temos que dar um dinheiro pra mãe, né?

Cristina: É, mas se dermos para sua mãe, vamos ter que dar pra minha irmã Angela.

João Pedro: Eu não vou dar nada pra aquela zolhuda. Ela só avacalhou com a nossa vida.

Cristina: Ah, vai sim! Ela é minha irmã, João. É sangue do meu sangue.

João Pedro: É, mas na hora de pagar o dinheiro que ela emprestou pro zoneiro do marido gastar, ela não se lembrou disso.

Cristina: Creia em Deus pai, João, Até quando você vai jogar na minha cara? Atpe o fim da minha vida?
Cristina fica irritada e vira de costas para o público. João Pedro pensa e resolve pedir desculpas.

João Pedro: Tá bom, tá bom, meu cheiro. Vamos ajudar todo mundo. Eu faço questão de dar uns dez mil pra sua irmã. Está bom assim? E dou quinze mil pra mãe, que tá velhinha, a coitada.

Cristina: E pro Tio Ulisses? Nós juramos prestar uma ajuda quando as coisas melhorasse...

João Pedro: Que merda, é verdade, agora vamos ter que ajudar.

Cristina: Eu disse para não promoter nada. Deveria ter dito que ia ajudar com um pacote de arroz, mas só deveíz em quando, mas tu não deixa a oportunidade de prometer o mundo. Até parece que é aquela Santa Beata lá que ajudava os pobres.

João Pedro: Vamos dar cinco mil pro velho, é mais dinheiro que ele viu em toda vida. Olha, pra quem pescava em São Chico, e aqui, vende rede, cinco paus é muita grana.
João Pedro começa a sair da cena.

Cristina: Onde tu vai?

João Pedro: Vou lá no seu Guilherme dar uma bebemorada. (vai saindo da cena). 

CENA 02

Cristina começa caminhar pela cena, demonstrando alegria e ansiedade.

Cristina: Cadê o telefone? (Encontra o aparelho telefônico e disca o número). Oi Mana, tudo bem contigo? Aqui ta ótimo, uma maravilha. Não, não... ele continua bebendo. Mana... Amanha é um grande dia. Eu não vou falar agora, amanha eu ligo pra você, mas já adianto que no domingo, eu quero todo mundo aqui em casa. Tchau.

Cristina começa olhar pela janela lateral e procura por alguém.

Será que a Dona Dominga está acordada? (Olha para lateral da cena). O Dona Dominga...tudo bem? (Pausa para Dona Dominga responder) A senhora sabe se a sua filha ainda quer vender aquela casona com piscina e tudo? (Pausa para Dona Dominga responder) Eu quero comprar. (Pausa para Dona Dominga responder) Não farei financiamento, será a vista, no dinheiro. A senhora me passa o número de telefone dela? (Pausa para Dona Dominga responder) Espera que vou buscar papel e caneta. (vá até a mesa do telefone para buscar o papel). Pode falar... Obrigado.

Essa veia vai tratar de contar para todo mundo. Amanha estarão todos por aqui para saber o aconteceu conosco. Que bom!


CENA 03

João Pedro: (Entra no bar) Pode parar com todos os trabalhos. Parem com tudo isso que estão fazendo. (Aponta para o rádio e diz impaciente) Desliga, o rádio Guilherme. E sem pensar duas vezes, pede pra menina fritar mais coxinhas..

Seu Guilherme: O que é isso, João Pedro? Já ta possuído pelo cão da cachaça? Deixa a Cristina já chegou bêbado aqui..

João Pedro: Eu sou fiel a minha esposa, (aponta o dedo para o céu) tenho Deus como testemunha...

Seu Guilherme: Deixa o Cara lá de cima de fora disso.

João Pedro: E tenho o velho Zé Maneca, que fica 26 horas na frente do teu boteco. El vai confirmar que eu só bebo em casa ou aqui. Só nesses dois lugares. Os meus verdadeiros santuários.

Seu Guilherme: Deixa disso, o homem já não anda. Agora você vai 
julgar que ele fica observando o movimento?

João Pedro: Eu não vou fazer esse homem andá. Isso é obra pro Cara lá de cima que Cristina tanto reza. Mas vou providenciar uma cadeira de rodas muito massa, vai ter até porta copo de pinga.

Seu Guilherme: Tu vai dedicar à vida pros mais necessitados ou (fala arrastado) como aqueles patrões que descem lenha nos peões na empresa que é dono. Mas no dia das crianças, da páscoa, das crianças e na véspera de Natal chega até aqui para praticar o espírito da solidariedade? (O trecho está muito trucado. É preciso melhorar)

João Pedro: Como já cantaram “Amanha será um novo dia cheio de harmonia...”

Seu Guilherme: Aí, meu Deus, vai é virar político desses partidos nanicos que falam em salvar os pobres.

João Pedro: Nada disso, Seu Guilherme. Eu vou é virar classe média. Na verdade, eu já virei, só falta o dinheiro cair na conta.

Seu Guilherme: Tú sabe que hoje em dia, ser de classe média é dever na praça?

João Pedro: Caramba. Há quanto tempo à gente se conhece? Tu não podes ver um homem feliz que já começa a invejar, a tirar uma casca.

Seu Guilherme: Vai começar bate boca?

João Pedro: Nada disso. Desce uma rodada de gelada pra todo mundo. E tem mais, pra quem chegar nos próximos cinco minutos, também será por minha conta. Pode chamar os maconheirinhos da ponte.

Seu Guilherme: Deixa os meninos, é só uma gurizada que ta procurando algo pra fazer.

João Pedro: Uma ponte como área de lazer é pr `acaba. Eu vou fazer uma quadrinha de salão e um parquinho aqui, perto da ponte.

Seu Guilherme: Já começou a campanha eleitoral?

João Pedro: (Ignora a pergunta do Seu Guilherme) Se hoje foi o dia. Amanha será o grande dia. (levanta e saí da cena) No finalzinho do dia volto pra pagar tudo....me aguardem.

CENA 04

João Pedro está sozinho na cena. Anda nas pontas dos pés. Demonstra ansiedade. Cristina entra na cena.

Cristina: Já acordado?

João Pedro: Não preguei os olhos, quando pegava no sono, eu acordava com um susto.

Cristina: Isso é ansiedade.

João Pedro: Ansiedade! Deve ser ansiedade pra levar uma vida decente. Enquanto todo mundo trabalha, trabalha, faz financiamento, paga prestação e fica devendo cada vez mais.... Eu tive a sorte. Que fortuna me espera!

Cristina: Nos espera.

João Pedro: Eu vou pra fila da Caixa. Não vou esperar até as onze horas.

Cristina: Mas são setes e meia.

João Pedro: Eu vou é agora... (Ele parte sem se despedir)

Cristina: E o meu beijo....

CENA 05

Cristina está sozinha em cena. Limpa toda a casa. A intenção da limpeza é para representar a passagem do tempo. Pode utilizar movimentações para despertar o riso da plateia. Antes de representar que terminou a limpeza, encontra o aparelho telefônico e faz uma ligação.

Cristina: (ao telefone) Aí menina, eu comprei umas coisinhas na Magazine, já fiz um pedido especial para um churrasco comemorativo. Não, a Kombi ainda não trouxe. Comprei só coisa fina, nada de segunda. Afinal, é um momento especial. Tenha calma, eu vou contar o motivo da alegria, mas só na festa.
Pedro entra na casa em completo silêncio.

Cristina: (Olha para o céu) Deus do céu. Que alegria o Senhor me deu.

João Pedro: É bom começar a rezar pela multiplicação do pão.

Cristina: Eu já fiz o pedido pra comemorar a nossa subida para classe média.
(João Pedro continua em silêncio)

Cristina: Vamos diga, logo, o quanto deu em dinheiro? Cadê? (Procura pelos bolsos do João Pedro) Eu não estou vendo o volume nos seus bolsos, nem em suas mãos. Meus Deus, deve ser tanto que não teve como trazer. Vamos, diga logo. Quanto ganhou? Vai me dizer que não ganhou nada?

João Pedro: (sem demonstrar alegria) Sim. Eu ganhei.

Cristina: João Pedro pára com isso logo.... Você ta me deixando preocupada. O que foi que aconteceu na Caixa?

João Pedro: (demonstra preocupação.) Ganhamos!

Cristina: O sangue de Jesus tem poder!!!

João Pedro: Nós ganhamos. Ganhamos uma fortuna que foi dividida entre 364 ganhadores. Com a divisão de R$ 18,90 pra gente.

Cristina: Que droga.

(Entra o Seu Guilherme)

Seu Guilherme: Vai pagar a conta hoje ou não?

João Pedro: (olha para plateia) Adeus classe média.

FIM



[i] Livremente adaptado/inspirado no conto “Adeus Classe Média”, de Alberto Ferreira, publicado no livro “O cantador de memórias”.