A Biblioteca Terra Livre, de São
Paulo, publicou no seu canal de youtube o documentário Arte e Anarquia, de
1989, produzido pela Fundação de Estudos Libertários Anselmo Lorenzo, da
Espanha. O documentário é dirigido por Emilio Garcia Weidemann. O filme apresenta uma
narrativa sobre alguns grupos de arte de vanguarda e suas relações com o
anarquismo. Para assistir com legenda em português clique no ícone “Ativar
Legendas” na barrar inferior do vídeo.
Mostrando postagens com marcador arte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador arte. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
O grande jogo, de Alexander Berkman
A
peça “O grande jogo”, de Alexander Berkman*, traduzida por Natalia Montebello
e publicada na Revista Verve, número 14, em 2008.
Berkman e Emma Goldman em 1917
O grande jogo, de Alexander Berkman
Personagens:
Eu
(industriais e capitalistas)
Você
(operários)
Negra
Figura (Lei)
(Abrem-se
as cortinas)
Eu
― Desçam ao interior da terra. Tragam a luz o
carvão
e o ouro, o ferro, a prata e as pedras preciosas.
Você
― Considere feito.
Eu
― Construam fabricas e maravilhosas ferramentas
e
modelem o mundo em jubilo e beleza.
Você
― Considere feito.
Eu
― Muito bem, meus homens. Maravilhoso! Quanta
abundancia!
Quantas riquezas! Todas minhas.
Algumas
vozes ― Suas? Por que? Nos fizemos tudo!
(Comoção
no palco)
Mais
vozes (enfurecidas) ―
São nossas! Nos as fizemos.
Eu
― Silencio! Eu não mandei que o fizessem?
Vozes
― Mas e nosso. Nos o fizemos.
Eu
― Chamemos a Lei!
(Entra
a Negra Figura, vestida de preto, levando uma
Bíblia
em uma mão, a espada desembainhada na outra.
As
duas mãos com luvas)
(Um
silêncio solene quando fala a Lei)
Negra
Figura ― E seu. Assim está decretado. A integridade
de
nossas justas e livres instituições deve ser
mantida.
(Todos
reverentemente ajoelham-se diante da Negra
Figura)
(Sai
a Negra Figura)
Eu
(orgulhosamente jubiloso) ―
E meu, por Lei.
Você
― Nos somos pobres. Nossas esposas precisam
de
comida, nossas crianças tem fome.
Eu
― Eu darei a vocês as coisas de que precisam.
Você
― Nos de! Nos de!
Eu
― Em troca de mais trabalho. Venderei as coisas
que
vocês fazem e lhes darei um salario por isso.
Você
― Salários! Bons salários?
Eu
― Sim, um salario justo.
Você
― Tome, tome! Um salario justo!
Eu
― Entregarei a vocês comida e roupa em troca de
seus
salários.
Você
― Um amo carinhoso! Tome, pegue nossos salários!
(Eu
pega os salários e entrega escassas rações de
comida)
(Você,
depois de ter devorado a comida, em pé com as
mãos
vazias, com semblante satisfeito)
Eu
(com profunda auto-satisfacao) ―
A indústria e a
economia
são a coluna vertebral de nossa grande prosperidade
nacional.
Você
― Mas nos não obtivemos nada.
Eu
― Elejam-me para o ministério e aprovarei uma
lei
para abrir cozinhas populares para aqueles dentre
vocês
que merecerem minha generosidade.
Você
― Viva! Viva! Nosso candidato!
(Um
desfile com tochas)
(Fecham-se
lentamente as cortinas)
Notas:
1
The Blast, San Francisco, Estados Unidos, 29 de janeiro de 1916.
*
Imigrante russo que se tornou proeminente anarquista nos EUA. Cometeu um
atentado contra um industrial durante uma greve operária e passou 14 anos na
prisão. Em 1919, devido a contundentes manifestações contra a guerra,foi
deportado para a Rússia junto com vários anarquistas, inclusive Emma Goldman,
sua companheira na vida amorosa e política. Depois de dois anos,deixaram o país
e lideraram a crítica libertária aos rumos autoritários da Revolução Russa e
das ações do Partido Comunista. Gravemente doente, Berkman morreu aos 66 anos,
na França, em 1936.
sábado, 2 de janeiro de 2016
Uma mulher operária, anarquista e atriz.
Na busca de materiais com referência ao anarquismo e o teatro no Brasl, encontrei num blog (perdi o link) um fragmento biográfico de Maria Valverde Silvello. Entre os anos de 1940 e 1950, a operária, atriz e anarquista realizou um trabalho teatral no Centro de Cultura Social. A biografia foi organizada por Edgar Rodrigues para o livro Os Companheiros. volume 4. Editora Insular, Florianópolis, 1997.
Maria Valverde Silvello
Brasileira, operária, anarquista!
Nasceu em Piracicaba no dia 27 de março de 1916. Filha de camponeses com sangue espanhol e italiano, Maria Valverde viveu, trabalhou e casou no interior do Estado de São Paulo com Cecílio Dias Lopes, espanhol, nascido em Granada.
Em resumo biográfico, enviado a pedido do autor a 18 de junho de 1980, Maria Valverde fala da sua descendência: “Meus pais, José Valverde Dias e Angelina Silvello, filhos de colonos, conheceram o trabalho escravo nas fazendas paulistas. Minha mãe nasceu na Fazenda Santo Antônio, de Prudente de Morais, que você cita no seu livro, de onde meus avós tiveram de fugir com os filhos por não suportarem mais os maus tratos do capataz e dos donos da fazenda”.
“Meu pai descendia de espanhóis anticlericais, e apesar de trabalhador do campo recebia regularmente no interior do Estado A Lanterna. Foi também militante do Centro de Cultura Social.”
Em 1939, Maria Valverde e o marido mudaram-se para a Capital. Tinham em mente duas coisas: encontrar trabalho, fixar residência e conviver com os libertários. A Lanterna havia-lhes iluminado o “novo caminho”.
Seu marido, como bom espanhol, criado na Fazenda Pasto Velho, em São Manuel do Paraíso, carregava como Maria Valverde o “gérmen” da rebeldia contra a escravidão no campo e as sementes emancipadoras que A Lanterna lançava no interior do Estado paulista.
Vivia-se o começo da Segunda Guerra Mundial. O movimento anarquista desenvolvia sua atividade clandestinamente. Os militantes mais conhecidos da polícia inquisitorial de Vargas reuniam-se alternadamente em casa de companheiros. O Centro de Cultura Social não tinha sede.
Neste entreato, o casal Maria Valverde-Cecílio fez contato com militantes anarquistas de São Paulo, conhecendo então pessoalmente Edgard Leuenroth, diretor do jornal A Lanterna, começando a participar de reuniões em fins de 1940. O Centro de Cultura Social abria caminho pela via teatral representando peças libertárias e anticlericais.
No ano de 1942, Maria Valverde, sua irmã Angelina Valverde e seu marido Cecílio Dias Lopes passaram a integrar o corpo cênico do Centro, só se afastando da atividade teatral em 1957 por motivos de doença.
Em julho de 1980, pedimos a Maria Valverde que nos falasse de sua participação teatral, e dela recebemos os nomes das seguintes peças em que trabalhou: “Primeiro de Maio”, de Pietro Gori; “Ressonar sem Dormir”, “Madrid”, de Pedro Catalo; “Uma Mulher Diferente”, P. Catalo; “A Sombra”, de Dário Nicodemi; “O Herói e o Viandante”, de P. Catalo; “Insensata”, de P. Catalo; “A Casa dos Milagres”; “Tabu”, de Francisco Xsvoboda; “Nossos Filhos”, de Florêncio Sanches; “Os Mortos” de Florêncio Sanches; “O Feitiço”, de Oduvaldo Viana; “O Coração é um Labirinto”, de P. Catalo; “Como Rola uma Vida”, P. Catalo; “Ciclone”, de W. Somerset Maugham; “O Maluco da Avenida”, de Carlos Arniches; “Está Lá Fora Um Inspetor”, e outras que não recorda. Todas educativas e sociais, encenadas diversas vezes.
Os filhos do casal Cecílio-Maria Valverde também trabalharam em algumas peças, onde se fazia necessário a presença de adolescentes.
Maria Valverde não se limitou a ser atriz, fez parte também do Centro de Cultura, chegando a ocupar cargos em sua diretoria. Participou ainda de festas de congraçamento anarquista em Nossa Chácara e esteve presente em todos os Congressos anarquistas ali realizados, chegando a usar da palavra em nome das mulheres anarquistas.
Maria Valverde, para o autor, foi bem mais do que a colaboradora do Teatro Social e do Centro de Cultura Social com sede na rua Rubino de Oliveira, São Paulo; foi uma excelente amiga, valiosa colaboradora numa pesquisa que produziu mais de meia dúzia de obras de história social por nós publicadas.
Sua casa na rua Cesário Galeno, 430, em Tatuapé, está ligada historicamente a essas obras. Foi pousada, ponto de encontros e local onde colhemos dados sem os quais nosso trabalho ficaria muito pobre. Ali encontrei amizade sincera, ajuda incondicional, honradez!
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
Os festivais operários no Rio de Janeiro pelo informativo Emecê.
A expressão “memória é luta!” cabe
muito bem para a proposta do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa, situado no
Rio de Janeiro. Por meio do informativo
Emecê, o NPMC realiza um importante trabalho da memória do anarquismo. A pesquisa é
possível encontrar no site (aqui) e nos informativos disponibilizados para
consulta virtual (aqui).
A
edição de agosto de 2009 apresenta um texto sobre os festivais de arte operária
nas primeiras décadas do século XX. Segundo o Emecê, os festivais realizaram
ações de grande importância por meio do teatro, da música e diferentes manifestações artísticas com objetivo de formação duas gerações de militantes anarquistas e do sindicalismo revolucionário.
Clique
aqui e leia o artigo completo Arte e consciência: os festivais operários no Rio de Janeiro”.
Marcadores:
arte,
Emecê,
Festivais,
memória é luta,
memórias,
memórias sindicais,
Música,
Núcleo de Pesquisa Marques da Costa,
sindicalismo,
sindicalismo revolucionário,
Teatro
domingo, 27 de dezembro de 2015
Comédia de um ato
A peça "Comédia de um ato" está presente na antologia Contos Anarquistas, vários autores, organizado por Arnoni Prado, Foot Hardman e Claudia Leal, lançado pela Editora Martins Fontes. A antologia apresenta contos, textos em prosa e peças curtas de teatro publicados nos jornais operários e anarquistas brasileiros, entre os anos de 1890-1935.
Reproduzo a peça curta para estimular a leitura dos escritos das mãos de lutadores/as da classe operária. A literatura (assim como teatro, a educação, a poesia...) eram práticas fundamentais no lazer e na formação de homens e mulheres de todas as idades que não tinham acesso a educação e ao lazer na ordem capitalista do começo do século XX.
COMÉDIA
EM UM ATO
GIL
O
Estado está sentado em um trono feito de caveiras: empunha o açoite e tem na
cabeça a metade de um boné vermelho e metade de uma coroa real. A decoração da
sala é rica, mas estúpida... as paredes foram pintadas com sangue; ao pé do
trono dorme um chacal que na coleira traz escrito: polícia.
Época,
passada e presente.
A
ação desenrola-se aqui e além.
CENA
I
(O Estado só.)
Eu do alto deste trono em que me
acho, empunhando o cetro que Deus me deu, dirijo ao estalido da chibata esta
humanidade estúpida e imbecil que para nada mais serve, senão para trabalhar e
proporcionar bem-estar a mim e aos meus satélites.
Ah! Quero desfrutá-la, quero tornar-me um Nero, um Júlio César, um Calígula, ou todos reunidos!
E quem me poderá impedir?
Pois não sou o senhor absoluto? A minha vontade não é inatacável?
Quem é que ignora que tudo é meu, que tudo me pertence?
São meus estes montes, são minhas estas campinas, é minha aquela torrente, e é minha esta humanidade idiota com tudo quanto possui, e aqui ninguém tem o direito de viver sem o meu consentimento.
CENA
II
Entra o Clero.)
ESTADO: Quem és tu, o luxuriento fantasma que assim ousas vir à minha presença? Vens de alguma orgia, nesses trajes de dançarina grega e com esse pandeiro na cabeça? Diz-me, a que sexo pertences, és homem ou mulher?
CLERO: Sou o teu braço direito. Sem
o meu concurso, há muito que a tua soberania teria desaparecido, e tu para
viveres terias que ir plantar batatas, como os demais.
ESTADO: Como assim? Chamo-me
Estado.
CLERO: Tu governas, porém sou eu
quem atrofia as consciências e que as preparar a fim que humildemente se
submetam a serem governadas; para isso tenho espalhado sobre toda a superfície
da terra milhões de aves negras, dignos discípulos de Loyola, os quais não
obedevem senão às minhas ordens, e não fazem outra coisa a não ser catequizar a
plebe para que se resigne a obedecer-te e cumprir à risca as tuas e as minhas
ordens; como recompensa a essa obediência passiva, prometo-lhe a glória do
além-túmulo, de onde ninguém poderá voltar reclamar coisa alguma.
E quando alguém quer interpretar as coisas diversamente do que lhes ordeno, quando ousam falar em liberdade, igualdade, o punhal do sicário ou as fogueiras do S. Ofício sabem fazê-los calar para sempre.
Tu tens a força que te garante; mas ai de ti se ela compreendesse que não tem obrigação alguma de garantir o bem-estar de outrem, em detrimento próprio; se ela pudesse perceber que, o enquanto te serve de guarda-costas, tu a exploras tanto quanto a plebe (pois que ela é composta na sua maioria de filhos do povo), abadonar-te-ia a ti e aos teus; descansa, porém, que aqui está o clero, pronto a impedir o desenvolvimento intelectual dos teus comandados.
ESTADO: E por que forma?
CLERO: Por meio das escolas das
igrejas, dos missionários.
Nas escolas aproveitamos a infância
que é fácil de dominar à vossa vontade: incutimos-lhe no espírito que deve
obedecer a Deus, à Igreja e ao Governo e convencemo-la de que somos seus
superiores, que nos deve obediência, que é por vontade de Deus que o mundo é
feito assim, e que nós somos enviados para guiar a humanidade no caminho do
dever a fim de que esta possa alcançar o reino do céu.
Essa infância de hoje serão os homens do amanhã que, assim preparados pelo clero, continuarão a prestar-te homenagem e a julgarem-se tuas eternas bestas de carga; para que alguém não se desvie do caminho que lhe traçamos, temos as igrejas com os respectivos confessionários, por meio dos quais sabemos tudo o que se passa e podemos mandar para a fogueira alguma ovelha que entenda pôr o rebanho a perder.
Temos também um Deus bom, justo, caridoso, infalível, que tudo vê e sabe premiar e elevar ao reino dos céus, onde tudo é música, alegria e flores, os que sofrem com resignação as misérias desta vida. Além disso, o povo está convencido de que o nosso Deus também é perveso, sanguinário, mau, dinamiteiro, eterno foguista dos caldeirões dos infernos, onde se diverte a fazer ferver os que não seguem à risca o que lhes manda a santa madre Igreja, da sou ministro pleni-potenciário, com carta-branca para, em nome de um Deus que não conheço nem desejo conhecer, podermos amordaçar as consciências, aterrorizar os francos, suplicar os sábios, estuprar menores e viver à custas de todos esses imbecis, que, com medo de ir visitar o nosso Deus foguista, fazem o que lhes mando, convencidos de ganharem o reino das glórias ou... da estupidez.
Enquanto isso, nós gozamos as delícias da terra e aspiramos a essência dessas beldades peregrinas, traídas pelos salmos cantados ao som das nossas vandálicas gargalhadas, ah! Ah! Ah! Isso até quando essas gargalhadas não se transforarem em riso macabro, enquanto as nossas caveiras não escarnecerem de nós mesmos.
CENA
III
(Os mesmo e um desconhecido.)
ESTADO: Quem és tu, oh mísera
lesma? Como te atreveste a sair da lama em que vegetas?
CLERO: Sim, como conseguiste vir
até aqui?...
ESTADO: Sem que a chibata do
mordomo te retalhasse o focinho?
CLERO: E o que é que queres?
O
desconhecido fez uma reverência e inclinou-se até ficar de quatro para
representar o que é.
DESCONHECIDO: Trim-blim-blim, vai,
vai, vai fechar. O burro é o azar. Última quinela! Atucha*, rapaziada! Quem
mais joga, menos puxa! Olha o zerinho da Santa Casa... Ninguém ganhou. Atucha
de novo, que esta não prestou. Trim, blim, blim... Ao tiro americano, sistema
máuser, feito! Feito o joguinho do caipira, quem mais joga menos tira...
Coragem, rapaziada! Quem não ganha trepa pau da cocanha e desforra-se! Trim,
blim, blim... vai, vai... Prepara... Fecha! Catatrai** fechooo!
(Dirigindo-se aos dois:)
Reverenda Santidade... Sua
Excelência o Estado...
ESTADO: Quem és tu, meu arlequim?
CLERO: Quem és tu, meu arlequim?
CLERO (à parte): Quem será essa ave?
DESCONHECIDO: Ora essa! Querem ver
que, apesar da minha popularidade, há quem não me conhece?
Pois eu sou o Bicho, o afamado Bicho, o digno continuador da vossa obra...
Tudo quanto tendes posto em prática não chega para reduzir à impotência os vossos súditos; isso de impostos, latim e benzeduras não chega. É necessário o joguinho do bicho; ele, sim, os depena às mil maravilhas: o bichinho impede ao povo de fazer economias, torna-o vadio, velhaco, desmoralizado, perde o crédito, finta a Deus e ao diabo, empenha e vende o que possui, e, quando mais nada tem para jogar, vai aos quintais dos vizinhos e carrega o que lé encontra: roupa, lenha, galinha, tudo lhe serve; e nesse labutar constante não tem tempo de ver o despotismo dos governos, de ver o que fazem os representantes das nações, como se executam as leis e tantas outras coisas.
Já vedes, pois, que graças ao bicho podeis dormir descansados, porque a maioria dos vossos súditos não tem tempo de sindicar o que fazeis, se está realmente separada a Igreja o que fazeis, se está realmente separada a Igreja do Estado, como é que os padres se ocupam de política, por que é que os frades não pagam impostos para darem espetáculos no meio da rua, por que há tanta miséria, por que não há trabalho, por que há tanta ladroeira nos cofres públicos e os culpados passeiam impunes, e os presos em flagrante, réus confessos, são por fim despronunciados. Podeis dormir sossegados o sono da inocência, que o Bicho dá-lhes muito que fazer sem deixar-lhes tempo de se ocuparem de vós. O que eles querem e eu também é poder jogar mesmo nas bardas da lei!
ESTADO: Bravos! Venha de lá um
abraço e podes jogar à vontade.
(Abraçam-se os três.)
CENA
IV
(Uma voz oculta, cantando:)
A mísera plebe morre de fome,
Por toda parte miséria e peste.
Além só se ouvem ânsias e gritos,
aqui só se vê o azul celeste.
(Com ironia:)
Oh! Torpe matéria!...
Se os triturassem qual pedra bruta
Que foco de miséria irromperia de
tais almas corruptas!
(Todos, assustados:)
O que será isto?
CLERO: Ah! É a voz da igualdade que
clama contra o nosso despotismo. Vamos, em campo! Todos os meios são bons para
sufocá-la. Acendam as fogueiras, preparem os patíbulos!
(Todos:)
Vamos, vamos!
(Saem de braços dados.)
(A mesma voz que se afasta:)
Ah! Vida, vida, incendiada tragédia, transfigurado horror, sonho transfigurado; macabras contorções de lúgubre comédia, que um cérebro de louco houvesse imaginado.
(Desce o pano)
O Despertar, PR, ano I, nº 4, 8 out. 1904.
Marcadores:
´jornalismo operário,
Anarquismo,
arte,
cultura autogestionária,
cultura libertária,
Gil,
memórias,
Movimento Operário,
O Despertar,
Paraná,
Século XX,
sindicalismo,
sindicalismo revolucionário,
Teatro
sábado, 1 de agosto de 2015
Depois de Nina
"Escolhi refletir o tempo e as
situações em que me encontro. Para mim, isso é o meu dever, e neste momento
crucial de nossas vidas, quando tudo é tão desesperador, quando tenta apenas
sobreviver cada dia, não tem como não se envolver. Jovens brancos e negros
sabem disso, e é por isso que estão tão envolvidos com a política. Vamos
modelar e dar forma a este país ou ele não será nem modelado nem receberá forma
alguma. Não se tem escolha... Como ser
artista e não refletir a época?"
Nina Simone.
quinta-feira, 23 de julho de 2015
Uma carta de 1871
Eu
tenho uma curta experiência com teatro. Não tenho formação acadêmica, somente cursos
e leituras avulsas. Entre um trabalho e outro, tomei conhecimento da Carta aos
Artistas de Paris, escrita pelo pintor Gustave Coubert, em 19 de março de 1871, na
emblemática revolta popular de Paris, a Comuna. A carta de Coubert fala do seu
contexto histórico, é claro. Porém, não é possível deixar de considerar que
toca pontos silenciados pela classe artística contemporânea. Deixo com você,
caro leitor e leitora, a carta de Coubert.
“Paris,
18 de março de 1871
Meus queridos companheiros artistas,
Meus queridos companheiros artistas,
Vocês me deram a honra, em sua reunião, de me indicar seu presidente. Eu os
estou convocando aqui, em nome do comitê que foi designado a auxiliar-me, para
reportar-lhes sobre nossas fiscalizações e nossas ações. Aproveitaremos também
esse encontro para apresentar diversas idéias que surgiram durante o exercício
de nossas atividades, em uma proposta para uma nova reorganização da
Administração das Belas Artes, que tem como objetivo promover a Exposição e os
interesses das artes e dos artistas.
As administrações anteriores que governaram a França quase destruíram a arte
sob sua proteção, ao suprimir sua espontaneidade. Essa abordagem feudal,
sustentada por um governo despótico e discricionário, não produziu nada além de
arte aristocrática e teocrática, justamente o oposto das tendências modernas,
de nossas necessidades, de nossa filosofia, e da revelação do homem
manifestando sua individualidade e sua independência física e moral. Hoje, numa
época em que a democracia deve reger todas as coisas, seria ilógico a arte, que
conduz o mundo, ficar para trás na revolução que está ocorrendo agora na
França.
Para alcançar esse objetivo, discutiremos em uma assembléia de artistas os
planos, projetos e idéias que nos serão submetidos, no intuito de realizar uma
nova reorganização da arte e de seus interesses materiais.
Não há dúvidas que o governo não deve tomar a dianteira em questões públicas,
pois não é capaz de carregar em seu interior o espírito de uma nação;
consequentemente, qualquer proteção será em si mesma prejudicial. As academias
e o Instituto, que apenas promovem a arte convencional e banal, para que sejam
julgados por seus integrantes, opõem-se necessária e sistematicamente a novas
criações da mente humana e infligem a morte de mártires em todos os homens inventivos
e talentosos, em detrimento de uma nação e para a glória de uma tradição e
doutrina estéreis.
Vejam, por exemplo, o caso deplorável da École des Beaux-Arts, favorecida e
subsidiada pelo governo. Essa escola não apenas desvia nossos jovens, mas nos
priva da arte francesa, com suas finas procedências, favorecendo, sobretudo, a
tradição túrgida e religiosa italiana, que vai de encontro ao espírito da nossa
nação. Essas condições podem apenas perpetuar a arte pela arte e a produção de
trabalhos estéreis, sem caráter ou convicção, enquanto nos privam de nossa
própria história e espírito sem qualquer compensação.
Portanto, para tomarmos decisões sobre bases mais racionais e mais adequadas
aos nossos interesses comuns, no intuito de abolir os privilégios, as falsas
distinções que estabelecem entre nós hierarquias perniciosas e ilusórias, é
desejável que os artistas (como nas províncias e em todos os países vizinhos)
definam seu próprio curso. Deixe que eles determinem como farão as exposições;
deixe que definam a composição dos comitês; deixe que obtenham o local onde
será a próxima exposição. Isso pode ser resolvido até 15 de maio, pois é
urgente que todos os franceses comecem a ajudar o país a se salvar de um imenso
cataclismo.
É impossível que qualquer artista não tenha um ou dois trabalhos que ainda não
tenham sido exibidos. Para os demais, chamaremos artistas estrangeiros.
Excluiremos, certamente, os artistas alemães, mesmo que isso seja contrário aos
princípios da descentralização e solidariedade. Mas os alemães, após terem se
beneficiado de aquisições francesas e comissões por tanto tempo sem
reciprocidade, nos obrigam, por sua traição e espionagem, a tomar tal atitude
nesse momento.
O local de encontro será anunciado em breve, bem com o as propostas a serem
submetidas aos artistas.
Saudações fraternais,
G. Courbet”
Assinar:
Postagens (Atom)

