A Biblioteca Terra Livre, de São
Paulo, publicou no seu canal de youtube o documentário Arte e Anarquia, de
1989, produzido pela Fundação de Estudos Libertários Anselmo Lorenzo, da
Espanha. O documentário é dirigido por Emilio Garcia Weidemann. O filme apresenta uma
narrativa sobre alguns grupos de arte de vanguarda e suas relações com o
anarquismo. Para assistir com legenda em português clique no ícone “Ativar
Legendas” na barrar inferior do vídeo.
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
O grande jogo, de Alexander Berkman
A
peça “O grande jogo”, de Alexander Berkman*, traduzida por Natalia Montebello
e publicada na Revista Verve, número 14, em 2008.
Berkman e Emma Goldman em 1917
O grande jogo, de Alexander Berkman
Personagens:
Eu
(industriais e capitalistas)
Você
(operários)
Negra
Figura (Lei)
(Abrem-se
as cortinas)
Eu
― Desçam ao interior da terra. Tragam a luz o
carvão
e o ouro, o ferro, a prata e as pedras preciosas.
Você
― Considere feito.
Eu
― Construam fabricas e maravilhosas ferramentas
e
modelem o mundo em jubilo e beleza.
Você
― Considere feito.
Eu
― Muito bem, meus homens. Maravilhoso! Quanta
abundancia!
Quantas riquezas! Todas minhas.
Algumas
vozes ― Suas? Por que? Nos fizemos tudo!
(Comoção
no palco)
Mais
vozes (enfurecidas) ―
São nossas! Nos as fizemos.
Eu
― Silencio! Eu não mandei que o fizessem?
Vozes
― Mas e nosso. Nos o fizemos.
Eu
― Chamemos a Lei!
(Entra
a Negra Figura, vestida de preto, levando uma
Bíblia
em uma mão, a espada desembainhada na outra.
As
duas mãos com luvas)
(Um
silêncio solene quando fala a Lei)
Negra
Figura ― E seu. Assim está decretado. A integridade
de
nossas justas e livres instituições deve ser
mantida.
(Todos
reverentemente ajoelham-se diante da Negra
Figura)
(Sai
a Negra Figura)
Eu
(orgulhosamente jubiloso) ―
E meu, por Lei.
Você
― Nos somos pobres. Nossas esposas precisam
de
comida, nossas crianças tem fome.
Eu
― Eu darei a vocês as coisas de que precisam.
Você
― Nos de! Nos de!
Eu
― Em troca de mais trabalho. Venderei as coisas
que
vocês fazem e lhes darei um salario por isso.
Você
― Salários! Bons salários?
Eu
― Sim, um salario justo.
Você
― Tome, tome! Um salario justo!
Eu
― Entregarei a vocês comida e roupa em troca de
seus
salários.
Você
― Um amo carinhoso! Tome, pegue nossos salários!
(Eu
pega os salários e entrega escassas rações de
comida)
(Você,
depois de ter devorado a comida, em pé com as
mãos
vazias, com semblante satisfeito)
Eu
(com profunda auto-satisfacao) ―
A indústria e a
economia
são a coluna vertebral de nossa grande prosperidade
nacional.
Você
― Mas nos não obtivemos nada.
Eu
― Elejam-me para o ministério e aprovarei uma
lei
para abrir cozinhas populares para aqueles dentre
vocês
que merecerem minha generosidade.
Você
― Viva! Viva! Nosso candidato!
(Um
desfile com tochas)
(Fecham-se
lentamente as cortinas)
Notas:
1
The Blast, San Francisco, Estados Unidos, 29 de janeiro de 1916.
*
Imigrante russo que se tornou proeminente anarquista nos EUA. Cometeu um
atentado contra um industrial durante uma greve operária e passou 14 anos na
prisão. Em 1919, devido a contundentes manifestações contra a guerra,foi
deportado para a Rússia junto com vários anarquistas, inclusive Emma Goldman,
sua companheira na vida amorosa e política. Depois de dois anos,deixaram o país
e lideraram a crítica libertária aos rumos autoritários da Revolução Russa e
das ações do Partido Comunista. Gravemente doente, Berkman morreu aos 66 anos,
na França, em 1936.
sábado, 2 de janeiro de 2016
Uma mulher operária, anarquista e atriz.
Na busca de materiais com referência ao anarquismo e o teatro no Brasl, encontrei num blog (perdi o link) um fragmento biográfico de Maria Valverde Silvello. Entre os anos de 1940 e 1950, a operária, atriz e anarquista realizou um trabalho teatral no Centro de Cultura Social. A biografia foi organizada por Edgar Rodrigues para o livro Os Companheiros. volume 4. Editora Insular, Florianópolis, 1997.
Maria Valverde Silvello
Brasileira, operária, anarquista!
Nasceu em Piracicaba no dia 27 de março de 1916. Filha de camponeses com sangue espanhol e italiano, Maria Valverde viveu, trabalhou e casou no interior do Estado de São Paulo com Cecílio Dias Lopes, espanhol, nascido em Granada.
Em resumo biográfico, enviado a pedido do autor a 18 de junho de 1980, Maria Valverde fala da sua descendência: “Meus pais, José Valverde Dias e Angelina Silvello, filhos de colonos, conheceram o trabalho escravo nas fazendas paulistas. Minha mãe nasceu na Fazenda Santo Antônio, de Prudente de Morais, que você cita no seu livro, de onde meus avós tiveram de fugir com os filhos por não suportarem mais os maus tratos do capataz e dos donos da fazenda”.
“Meu pai descendia de espanhóis anticlericais, e apesar de trabalhador do campo recebia regularmente no interior do Estado A Lanterna. Foi também militante do Centro de Cultura Social.”
Em 1939, Maria Valverde e o marido mudaram-se para a Capital. Tinham em mente duas coisas: encontrar trabalho, fixar residência e conviver com os libertários. A Lanterna havia-lhes iluminado o “novo caminho”.
Seu marido, como bom espanhol, criado na Fazenda Pasto Velho, em São Manuel do Paraíso, carregava como Maria Valverde o “gérmen” da rebeldia contra a escravidão no campo e as sementes emancipadoras que A Lanterna lançava no interior do Estado paulista.
Vivia-se o começo da Segunda Guerra Mundial. O movimento anarquista desenvolvia sua atividade clandestinamente. Os militantes mais conhecidos da polícia inquisitorial de Vargas reuniam-se alternadamente em casa de companheiros. O Centro de Cultura Social não tinha sede.
Neste entreato, o casal Maria Valverde-Cecílio fez contato com militantes anarquistas de São Paulo, conhecendo então pessoalmente Edgard Leuenroth, diretor do jornal A Lanterna, começando a participar de reuniões em fins de 1940. O Centro de Cultura Social abria caminho pela via teatral representando peças libertárias e anticlericais.
No ano de 1942, Maria Valverde, sua irmã Angelina Valverde e seu marido Cecílio Dias Lopes passaram a integrar o corpo cênico do Centro, só se afastando da atividade teatral em 1957 por motivos de doença.
Em julho de 1980, pedimos a Maria Valverde que nos falasse de sua participação teatral, e dela recebemos os nomes das seguintes peças em que trabalhou: “Primeiro de Maio”, de Pietro Gori; “Ressonar sem Dormir”, “Madrid”, de Pedro Catalo; “Uma Mulher Diferente”, P. Catalo; “A Sombra”, de Dário Nicodemi; “O Herói e o Viandante”, de P. Catalo; “Insensata”, de P. Catalo; “A Casa dos Milagres”; “Tabu”, de Francisco Xsvoboda; “Nossos Filhos”, de Florêncio Sanches; “Os Mortos” de Florêncio Sanches; “O Feitiço”, de Oduvaldo Viana; “O Coração é um Labirinto”, de P. Catalo; “Como Rola uma Vida”, P. Catalo; “Ciclone”, de W. Somerset Maugham; “O Maluco da Avenida”, de Carlos Arniches; “Está Lá Fora Um Inspetor”, e outras que não recorda. Todas educativas e sociais, encenadas diversas vezes.
Os filhos do casal Cecílio-Maria Valverde também trabalharam em algumas peças, onde se fazia necessário a presença de adolescentes.
Maria Valverde não se limitou a ser atriz, fez parte também do Centro de Cultura, chegando a ocupar cargos em sua diretoria. Participou ainda de festas de congraçamento anarquista em Nossa Chácara e esteve presente em todos os Congressos anarquistas ali realizados, chegando a usar da palavra em nome das mulheres anarquistas.
Maria Valverde, para o autor, foi bem mais do que a colaboradora do Teatro Social e do Centro de Cultura Social com sede na rua Rubino de Oliveira, São Paulo; foi uma excelente amiga, valiosa colaboradora numa pesquisa que produziu mais de meia dúzia de obras de história social por nós publicadas.
Sua casa na rua Cesário Galeno, 430, em Tatuapé, está ligada historicamente a essas obras. Foi pousada, ponto de encontros e local onde colhemos dados sem os quais nosso trabalho ficaria muito pobre. Ali encontrei amizade sincera, ajuda incondicional, honradez!
domingo, 27 de dezembro de 2015
Comédia de um ato
A peça "Comédia de um ato" está presente na antologia Contos Anarquistas, vários autores, organizado por Arnoni Prado, Foot Hardman e Claudia Leal, lançado pela Editora Martins Fontes. A antologia apresenta contos, textos em prosa e peças curtas de teatro publicados nos jornais operários e anarquistas brasileiros, entre os anos de 1890-1935.
Reproduzo a peça curta para estimular a leitura dos escritos das mãos de lutadores/as da classe operária. A literatura (assim como teatro, a educação, a poesia...) eram práticas fundamentais no lazer e na formação de homens e mulheres de todas as idades que não tinham acesso a educação e ao lazer na ordem capitalista do começo do século XX.
COMÉDIA
EM UM ATO
GIL
O
Estado está sentado em um trono feito de caveiras: empunha o açoite e tem na
cabeça a metade de um boné vermelho e metade de uma coroa real. A decoração da
sala é rica, mas estúpida... as paredes foram pintadas com sangue; ao pé do
trono dorme um chacal que na coleira traz escrito: polícia.
Época,
passada e presente.
A
ação desenrola-se aqui e além.
CENA
I
(O Estado só.)
Eu do alto deste trono em que me
acho, empunhando o cetro que Deus me deu, dirijo ao estalido da chibata esta
humanidade estúpida e imbecil que para nada mais serve, senão para trabalhar e
proporcionar bem-estar a mim e aos meus satélites.
Ah! Quero desfrutá-la, quero tornar-me um Nero, um Júlio César, um Calígula, ou todos reunidos!
E quem me poderá impedir?
Pois não sou o senhor absoluto? A minha vontade não é inatacável?
Quem é que ignora que tudo é meu, que tudo me pertence?
São meus estes montes, são minhas estas campinas, é minha aquela torrente, e é minha esta humanidade idiota com tudo quanto possui, e aqui ninguém tem o direito de viver sem o meu consentimento.
CENA
II
Entra o Clero.)
ESTADO: Quem és tu, o luxuriento fantasma que assim ousas vir à minha presença? Vens de alguma orgia, nesses trajes de dançarina grega e com esse pandeiro na cabeça? Diz-me, a que sexo pertences, és homem ou mulher?
CLERO: Sou o teu braço direito. Sem
o meu concurso, há muito que a tua soberania teria desaparecido, e tu para
viveres terias que ir plantar batatas, como os demais.
ESTADO: Como assim? Chamo-me
Estado.
CLERO: Tu governas, porém sou eu
quem atrofia as consciências e que as preparar a fim que humildemente se
submetam a serem governadas; para isso tenho espalhado sobre toda a superfície
da terra milhões de aves negras, dignos discípulos de Loyola, os quais não
obedevem senão às minhas ordens, e não fazem outra coisa a não ser catequizar a
plebe para que se resigne a obedecer-te e cumprir à risca as tuas e as minhas
ordens; como recompensa a essa obediência passiva, prometo-lhe a glória do
além-túmulo, de onde ninguém poderá voltar reclamar coisa alguma.
E quando alguém quer interpretar as coisas diversamente do que lhes ordeno, quando ousam falar em liberdade, igualdade, o punhal do sicário ou as fogueiras do S. Ofício sabem fazê-los calar para sempre.
Tu tens a força que te garante; mas ai de ti se ela compreendesse que não tem obrigação alguma de garantir o bem-estar de outrem, em detrimento próprio; se ela pudesse perceber que, o enquanto te serve de guarda-costas, tu a exploras tanto quanto a plebe (pois que ela é composta na sua maioria de filhos do povo), abadonar-te-ia a ti e aos teus; descansa, porém, que aqui está o clero, pronto a impedir o desenvolvimento intelectual dos teus comandados.
ESTADO: E por que forma?
CLERO: Por meio das escolas das
igrejas, dos missionários.
Nas escolas aproveitamos a infância
que é fácil de dominar à vossa vontade: incutimos-lhe no espírito que deve
obedecer a Deus, à Igreja e ao Governo e convencemo-la de que somos seus
superiores, que nos deve obediência, que é por vontade de Deus que o mundo é
feito assim, e que nós somos enviados para guiar a humanidade no caminho do
dever a fim de que esta possa alcançar o reino do céu.
Essa infância de hoje serão os homens do amanhã que, assim preparados pelo clero, continuarão a prestar-te homenagem e a julgarem-se tuas eternas bestas de carga; para que alguém não se desvie do caminho que lhe traçamos, temos as igrejas com os respectivos confessionários, por meio dos quais sabemos tudo o que se passa e podemos mandar para a fogueira alguma ovelha que entenda pôr o rebanho a perder.
Temos também um Deus bom, justo, caridoso, infalível, que tudo vê e sabe premiar e elevar ao reino dos céus, onde tudo é música, alegria e flores, os que sofrem com resignação as misérias desta vida. Além disso, o povo está convencido de que o nosso Deus também é perveso, sanguinário, mau, dinamiteiro, eterno foguista dos caldeirões dos infernos, onde se diverte a fazer ferver os que não seguem à risca o que lhes manda a santa madre Igreja, da sou ministro pleni-potenciário, com carta-branca para, em nome de um Deus que não conheço nem desejo conhecer, podermos amordaçar as consciências, aterrorizar os francos, suplicar os sábios, estuprar menores e viver à custas de todos esses imbecis, que, com medo de ir visitar o nosso Deus foguista, fazem o que lhes mando, convencidos de ganharem o reino das glórias ou... da estupidez.
Enquanto isso, nós gozamos as delícias da terra e aspiramos a essência dessas beldades peregrinas, traídas pelos salmos cantados ao som das nossas vandálicas gargalhadas, ah! Ah! Ah! Isso até quando essas gargalhadas não se transforarem em riso macabro, enquanto as nossas caveiras não escarnecerem de nós mesmos.
CENA
III
(Os mesmo e um desconhecido.)
ESTADO: Quem és tu, oh mísera
lesma? Como te atreveste a sair da lama em que vegetas?
CLERO: Sim, como conseguiste vir
até aqui?...
ESTADO: Sem que a chibata do
mordomo te retalhasse o focinho?
CLERO: E o que é que queres?
O
desconhecido fez uma reverência e inclinou-se até ficar de quatro para
representar o que é.
DESCONHECIDO: Trim-blim-blim, vai,
vai, vai fechar. O burro é o azar. Última quinela! Atucha*, rapaziada! Quem
mais joga, menos puxa! Olha o zerinho da Santa Casa... Ninguém ganhou. Atucha
de novo, que esta não prestou. Trim, blim, blim... Ao tiro americano, sistema
máuser, feito! Feito o joguinho do caipira, quem mais joga menos tira...
Coragem, rapaziada! Quem não ganha trepa pau da cocanha e desforra-se! Trim,
blim, blim... vai, vai... Prepara... Fecha! Catatrai** fechooo!
(Dirigindo-se aos dois:)
Reverenda Santidade... Sua
Excelência o Estado...
ESTADO: Quem és tu, meu arlequim?
CLERO: Quem és tu, meu arlequim?
CLERO (à parte): Quem será essa ave?
DESCONHECIDO: Ora essa! Querem ver
que, apesar da minha popularidade, há quem não me conhece?
Pois eu sou o Bicho, o afamado Bicho, o digno continuador da vossa obra...
Tudo quanto tendes posto em prática não chega para reduzir à impotência os vossos súditos; isso de impostos, latim e benzeduras não chega. É necessário o joguinho do bicho; ele, sim, os depena às mil maravilhas: o bichinho impede ao povo de fazer economias, torna-o vadio, velhaco, desmoralizado, perde o crédito, finta a Deus e ao diabo, empenha e vende o que possui, e, quando mais nada tem para jogar, vai aos quintais dos vizinhos e carrega o que lé encontra: roupa, lenha, galinha, tudo lhe serve; e nesse labutar constante não tem tempo de ver o despotismo dos governos, de ver o que fazem os representantes das nações, como se executam as leis e tantas outras coisas.
Já vedes, pois, que graças ao bicho podeis dormir descansados, porque a maioria dos vossos súditos não tem tempo de sindicar o que fazeis, se está realmente separada a Igreja o que fazeis, se está realmente separada a Igreja do Estado, como é que os padres se ocupam de política, por que é que os frades não pagam impostos para darem espetáculos no meio da rua, por que há tanta miséria, por que não há trabalho, por que há tanta ladroeira nos cofres públicos e os culpados passeiam impunes, e os presos em flagrante, réus confessos, são por fim despronunciados. Podeis dormir sossegados o sono da inocência, que o Bicho dá-lhes muito que fazer sem deixar-lhes tempo de se ocuparem de vós. O que eles querem e eu também é poder jogar mesmo nas bardas da lei!
ESTADO: Bravos! Venha de lá um
abraço e podes jogar à vontade.
(Abraçam-se os três.)
CENA
IV
(Uma voz oculta, cantando:)
A mísera plebe morre de fome,
Por toda parte miséria e peste.
Além só se ouvem ânsias e gritos,
aqui só se vê o azul celeste.
(Com ironia:)
Oh! Torpe matéria!...
Se os triturassem qual pedra bruta
Que foco de miséria irromperia de
tais almas corruptas!
(Todos, assustados:)
O que será isto?
CLERO: Ah! É a voz da igualdade que
clama contra o nosso despotismo. Vamos, em campo! Todos os meios são bons para
sufocá-la. Acendam as fogueiras, preparem os patíbulos!
(Todos:)
Vamos, vamos!
(Saem de braços dados.)
(A mesma voz que se afasta:)
Ah! Vida, vida, incendiada tragédia, transfigurado horror, sonho transfigurado; macabras contorções de lúgubre comédia, que um cérebro de louco houvesse imaginado.
(Desce o pano)
O Despertar, PR, ano I, nº 4, 8 out. 1904.
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Teatro
terça-feira, 18 de agosto de 2015
Princípios político-ideológicos do anarquismo
“Opa. Você tem um texto básico
sobre anarquismo?” É uma mensagem que recebo com frequência. Caso tenha
conhecimento do hábito de leitura de quem realiza a solicitação, eu logo sugiro
o livro “No Café” ou “Anarquismo e anarquia”, os dois do anarquista Malatesta.
O pedido
também é realizado de outra forma, como “Tem alguma leitura rápida para ter uma
noção bem básica sobre anarquismo?” Aí ferrou. Eu nunca sei o que indicar.
Lendo o livro “Bandeira Negra: rediscutindo o anarquismo”, do Felipe Corrêa*,
um fragmento será a sugestão daqui para frente. Segue;
Princípios político-ideológicos do
anarquismo
Por meio da definição de anarquismo
apresentada e discutida neste capítulo, pode-se estabelecer um conjunto de
princípios político-ideológicos, que permite sumarizá-la. Trata-se, assim, de
uma síntese das posições colocadas, de maneira a formular princípios que
constituem as bases da ideologia anarquista.
Ética
e valores - A defesa de uma concepção ética, capaz de subsidiar críticas
e proposições racionais, pautada nos seguintes valores: liberdade individual e
coletiva; igualdade em termos econômicos, políticos e sociais; solidariedade e
apoio mútuo; estímulo permanente à felicidade, à motivação e à vontade.
Crítica
da dominação - A crítica das dominações da classe – constituídas
por exploração, coação física e dominações político-burocrática e cultural-ideológica
– e de outros tipos de dominação (gênero, raça, imperialismo, etc.).
Transformação
social do sistema e do modelo de poder - O reconhecimento de que as
estruturas sistêmicas fundamentadas em distintas dominações constituem sistemas
de dominação e a identificação, por meio de uma crítica racional, fundamentada
nos valores éticos especificados, de que esse sistema tem de ser transformado
em um sistema de autogestão. Para isso, torna-se fundamental a transformação do
modelo de poder vigente, de um poder dominador, em um poder autogestionário.
Nas sociedades contemporâneas, essa crítica da dominação implica uma oposição
clara ao capitalismo, ao Estado e às outras instituições criadas e sustentadas
para a manutenção da dominação.
Classes
e luta de classes - A identificação de que, nos diversos sistemas de
dominação, com suas respectivas estruturas de classes, as dominações de classe
permitem conceber a divisão fundamental da sociedade em duas grandes categorias
globais e universais, constituídas por classes com interesses inconciliáveis:
as classes dominantes e as classes dominadas. O conflito social entre essas
classes caracteriza a luta de classes. O anarquismo surge como uma ideologia
das classes dominadas e tem por objetivo impulsionar essa transformação que
implica, para a construção de um poder autogestionário, o fim das classes
sociais, a ser levado a cabo em um tipo de socialismo ao qual se chega por meio
de uma revolução social. Outras dominações devem ser combatidas
concomitantemente às dominações de
classe, sendo que o fim das últimas não significa, obrigatoriamente, o fim das
primeiras.
Classismo
e força social - A compreensão de que essa transformação social de
base classista implica uma prática política, constituída a partir da
intervenção na correlação de forças que constitui as bases das relações de
poder vigentes. Busca-se, nesse sentido, transformar a capacidade de realização
dos agentes sociais que são membros das classes dominadas em força social,
aplicando-a na luta de classes e buscando aumentá-la permanentemente. Esse
aumento permanente de força social pode ser buscado por meio das práticas junto
a agentes dominados em termos de raça, gênero, nacionalidade, mas, nesses
casos, essa luta exige uma perspectiva classista e internacionalista,
permanente em toda a prática anarquista.
Internacionalismo - A defesa de um classismo que não se
restrinja às fronteiras nacionais e que, por isso, fundamente-se no
internacionalismo, o qual implica, no caso das práticas junto a agentes
dominados por relações imperialistas, a rejeição do nacionalismo e, nas lutas
pela transformação social, a necessidade de ampliação da mobilização das
classes dominadas para além das fronteiras nacionais. O projeto revolucionário
anarquista prevê uma necessidade de internacionalização da revolução, de
maneira a dar condições de existência à autogestão generalizada.
Estratégia
-
A concepção racional, para esse projeto de transformação social, de estratégias
adequadas, que implicam leituras da realidade e o estabelecimento de caminhos
para as lutas. Ainda que o método de análise e as teorias não constituam
critérios para definir o anarquismo, e nem mesmo critérios para definição de
suas correntes, eles sempre são elaborados racionalmente e utilizados, em
distintas perspectivas, de acordo com a localidade e a época em que atuam os
anarquistas, acompanhando essa perspectiva geográfica e histórica. O objetivo,
de tipo finalista, de se chegar a um socialismo que se caracteriza por um
sistema de autogestão e um poder autogestionário está sempre presente como
perspectiva e projeto dos anarquistas. O caminho para essa transformação é
sempre concebido em termos estratégicos.
Elementos
estratégicos - Ainda que
os anarquistas defendam estratégias distintas, alguns elementos estratégicos
são considerados princípios: o estímulo à criação de sujeitos revolucionários,
mobilizados entre os agentes que constituem parte das classes sociais concretas
de cada época e localidade, as quais dão corpo às classes dominadas, a partir
de processos que envolvem a consciência de classe e do estímulo à vontade de
transformação; o estímulo permanente ao aumento de força social das classes
dominadas, de maneira a permitir um processo revolucionário de transformação
social; a coerência entre objetivos, estratégias e táticas e, por isso, a
coerência entre fins e meios e a construção, nas práticas de hoje, da sociedade
que se quer amanhã; a utilização de meios autogestionários de luta que não
impliquem a dominação, seja entre os próprios anarquistas ou na relação dos
anarquistas com outros agentes; a defesa da independência e da autonomia de
classe, que implica a recusa às relações de dominação estabelecidas com
partidos políticos, Estado ou outras instituições ou agentes, garantindo o
protagonismo popular das classes dominadas, o qual deve ser promovido por meio
da construção da luta pela base, de baixo para cima, envolvendo a ação direta.
Revolução
social e violência - A busca de
uma revolução social, que transforme o sistema e o modelo de poder vigentes, sendo
que a violência, como expressão de um nível mais acirrado de confronto, é
aceita, na maioria dos casos, por ser considerada inevitável. Essa revolução
implica lutas combativas e mudanças de fundo nas três esferas estruturadas da
sociedade e não se encontra dentro dos marcos do sistema de dominação presente
– está além do capitalismo, do Estado, das instituições dominadoras.
Defesa
da autogestão - A defesa da autogestão que fundamenta a prática
política e a estratégia anarquistas constitui as bases para a sociedade futura
que se deseja construir e envolve socialização da propriedade em termos
econômicos, o autogoverno democrático em termos políticos e uma cultura
autogestionária. Norteada pelos valores da ética anarquista, essa sociedade é
necessariamente socialista e garante a todos liberdade individual e coletiva;
igualdade em termos econômicos, políticos e sociais; solidariedade e apoio
mútuo; estímulo permanente à felicidade, à motivação e à vontade.
*O
texto é um fragmento retirado e adaptado do livro “Bandeira Negra: rediscutindo
o anarquismo”, do Felipe Corrêa. Editora Prisma, Curitiba. 2015.
domingo, 19 de julho de 2015
Dossiê Malatesta
“Queremos mudar radicalmente tal estado de coisas. E visto que todos estes males derivam da busca do bem-estar perseguido por cada um por si e contra todos, queremos dar-lhe uma solução, substituindo o ódio pelo amor, a concorrência pela solidariedade, a busca exclusiva do bem-estar pela cooperação, a opressão pela liberdade, a mentira religiosa e pseudocientífica pela verdade.”
Errico Malatesta (Fonte aqui.)
O dia 22 de julho de 1932 foi
marcado pela morte do anarquista italiano Errico Malatesta. A trajetória de
vida do Malatesta foi dedicada à luta revolucionária. Viajou e lutou na Europa,
no norte da África e na América Latina. O presente dossiê é uma seleção de
artigos para conhecer o trabalho militante do Malatesta.
![]() |
| Atividade realizada em Joinville, ano passado. Informações clique aqui. |
No Brasil não foi publicado livro biográfico do Malatesta. Mas é possível ler artigos biográficos que apresentam um pouco da história de vida e das visões políticas e estratégicas do companheiro de luta. Eu destaco o artigo do professor Maurício Tragtenberg, que publicou na Folha de São Paulo, no dia 16 de janeiro de 1983, o artigo "A atualidade de Errico Malatesta". Para ler clique aqui.
A Organização Resistência Libertária, do Ceará, integrante da Coordenação Anarquista Brasileira, elaborou um caderno de formação política com artigos do Malatesta. Os artigos correspondem a nossa concepção de anarquismo, teoria e sindicalismo. Clique aqui para acessar o material.
O portal Protopia oferece um banco de textos de autoria do Malatesta, basta clicar aqui. A minha sugestão é começar a leitura pelo livro "Escritos Revolucionários", clique aqui. É a obra mais indicada para conhecer a concepção de Malatesta sobre anarquismo.
“Porém, nós anarquistas não podemos emancipar o povo, queremos que o povo se emancipe. Não acreditamos no bem que vem do alto e se impõe pela força; queremos que o novo modo de vida social surja das vísceras do povo, que corresponda ao grau de desenvolvimento alcançado pelos homens e que possa progredir na medida em que eles progridem. A nós importa, portanto, que todos os interesses e todas as opiniões encontrem em uma organização consciente a possibilidade de fazer-se valer e de influir sobre a vida coletiva em proporção a sua importância.”
Errico Malatesta (Fonte aqui.)
O companheiro e pesquisador Felipe Corrêa tem um depoimento em vídeo sobre Malatesta. O vídeo aborda dados biográficos, ambiente político, teoria social, anarquismo, ideologia e estratégia. O material discute a contribuição de Malatesta para o anarquismo especifista, que é defendido pela Coordenação Anarquista Brasileira.
"Não se trata, portanto, de chegar à anarquia hoje ou amanhã, ou em dez séculos, mas caminhar rumo a anarquia hoje, amanhã e sempre."
Errico Malatesta (Fonte aqui.)
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segunda-feira, 6 de julho de 2015
Lembranças de uma greve.
A postagem tem por objetivo lembrar um episódio importante dos/as oprimidos/as no mundo do trabalho nas cidades brasileiras, a greve geral de 1917. No intuito de lembrar, publico um trecho de Edgar Leueroth sobre o terrível episódio da repressão policial contra a luta da classe trabalhadora e um recorte do texto de Nicolina Luiza de Petta.
Edgar no dia da sua prisão na greve geral.
"O enterro dessa vitima da reação foi uma das mais impressionantes demonstrações populares até então verificadas em São Paulo. Partindo o féretro da Rua Caetano Pinto, no Brás, estendeu-se o cortejo, como um oceano humano, por toda a avenida Rangel Pestana até a então Ladeira do Carmo em caminho da Cidade, sob um silencio impressionante, que assumiu o aspecto de uma advertência. Foram percorridas as principais ruas do centro. Debalde a Policia cercava os encontros de ruas. A multidão ia rompendo todos os cordões, prosseguindo sua impetuosa marca até o cemitério. À beira da sepultura revezaram os oradores, em indignadas manifestações de repulsa à reação (…) No regresso do cemitério, uma parte da multidão reuniu-se em comício na Praça da Sé; a outra parte desceu para o Brás, até à rua Caetano Pinto, onde, em frente à casa da família do operário assassinado, foi realizado outro comício."
12 de julho de 1917 –
Greve Geral no país por Nicolina Luiza de Petta. (recortes do texto original*).
No dia 12 de julho de
1917, a cidade de São Paulo parou: uma greve geral de cem mil trabalhadores
paralisou o trabalho nas fábricas e transportes. Essa foi a greve de maior
impacto do movimento operário no país nos primeiros anos da República. No
Brasil, greve também era denominada parede, e o movimento grevista denominado
paredista. O termo greve como sinônimo de paralisação do trabalho nasceu na França
em referencia a Praça Grève, localizada em Paris, onde os operários
desempregados reuniam-se na expectativa de serem chamados para trabalhar.
No início do século XX,
crescia no Brasil a organização a mobilização dos trabalhadores com o objetivo
de conquistar melhorias de vida e trabalho. Em 1903 foi criada a federação das associações
de classe (posteriormente Federação Operária do rio de janeiro); em 1905,
organizou-se a Federação Operária de São Paulo. Associações semelhantes foram
criadas em outros estados brasileiros. Em 1906 foi realizado o 1º Congresso
Operário Brasileiro. As greves tornaram-se constantes e, em alguns momentos,
amplas e numerosas. Os anos de 1906, 1907, 1912 e 1913 foram de muita ação,
assim como o ano de 1919. Os acontecimentos de 1917, porém, marcaram de forma
mais profunda a história da luta de classes no Brasil. Esse ano foi de agitação
operária, com a eclosão de greves em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraíba, Minas
Gerais e Rio Grande do Sul. No entanto, o movimento mais intenso nas cidades do
Rio de Janeiro, então capital federal, e de São Paulo.
Um conjunto de fatores
explica o clima de agitação social em 1917. A Primeira Guerra Mundial
(1914-1918) levou à diminuição das importações e ao aumento da demanda por
produtos nacionais; em 1916, as fábricas brasileiras ampliaram a produção e o
número de empregos aumentou. Mas a guerra foi responsável também por um grande
aumento no preço dos alimentos. Com os salários estagnados há anos, os
trabalhadores não conseguiam suportar a elevação crescente do custo de vida.
Ao longo do primeiro
semestre de 1917 ocorreram greves de diversas categorias, a maior parte no Rio
de Janeiro. As principais reivindicações dos operários eram: aumento salarial,
redução da jornada diária para oito horas, fim do trabalho noturno para mulheres
e crianças, liberdade de associação e de manifestação, redução no preço dos
aluguéis, melhoria dos transportes públicos.
No mês de Junho, o
movimento grevista ganhou força na cidade de São Paulo com a paralisação dos
operários do Cotonifício Crespi, aos quais irão se juntar, no início de julho,
trabalhadores de outras fábricas têxteis e também de outros setores.
Fonte da imagem aqui.
No dia 9 de julho,
segunda-feira, após um confronto com a polícia em frente à fábrica Antarctica
Paulista, os operários em greve seguiram para o bairro do Brás para fazer
piquete (impedir a entrada de trabalhadores que não aderiram à greve) na porta
da fábrica de tecidos Mariângela. No local, cinquenta policiais a cavalo e
trinta armados de fuzis tentaram dispersar a multidão; três operários ficaram
feridos.
O governo determinou o
fechamento da Liga Operária da Mooca, uma atuante organização operária de
orientação anarquista, e da Escola Moderna, instituição de ensino libertária,
onde estudavam filhos de operários. A alegação foi a de que eram locais de
fomento das rebeliões.
Fonte da imagem aqui.
Essas ações, vistas
como arbitrariedades pelos trabalhadores aumentaram a tensão social. Como
resposta, na noite do dia 9, os grevistas criaram o Comitê de Defesa Proletária
(CDP), coordenado por Edgar Leuenroth, fundador do jornal anarquista A Plebe. A orientação
política predominante entre os operários em 1917 era o anarquismo. As tarefas
do CDP eram difundir as reinvindicações de interesse dos grevistas.
No dia 10, o sapateiro
espanhol José Iñeguez Martinez, 21 anos, baleado no confronto do dia anterior,
morreu em decorrência do ferimento. O CDP decidiu fazer do enterro do
trabalhador um grande movimento contra a ação violenta da polícia. Por
intermédio da imprensa operária, o Comitê convocou a população a acompanhar o
féretro.
José Iñeguez Martinez. Fonte da imagem aqui.
Na manhã da
quarta-feira, dia 11, cerca de dez mil pessoas, de acordo com o jornal operário
Fanfulha, caminharam junto ao corpo do rapaz por várias ruas de São Paulo. A
polícia, previamente informada do trajeto, colocou seu efetivo guardando as
ruas, principalmente a Avenida Paulista, onde se localizavam os palacetes da
elite paulistana. Após o enterro, o CDP conseguiu reunir cerca de três mil
pessoas em um comício na Praça da Sé.
Foram registrados
saques a estabelecimentos comerciais trabalhadores em greve apedrejaram
fábricas e bondes e invadiram o Moinho Santista. À tarde, empresários reunidos buscavam uma
solução. Alguns, como Jorge Street, proprietário da Companhia Nacional de
Tecidos de Juta, entendiam que era preciso ceder e atender parte das
reivindicações; outros, como o dono do Cotonifício, Rodolfo Crespi, onde
começou a greve, mostravam-se irredutíveis, acreditando que a repressão
conseguiria desmobilizar os trabalhadores.
Protesto que acompanhou o corpo do operário José. Fonte da imagem aqui.
Não foi o que
aconteceu. No dia 12 a cidade parou: a greve atingiu os trabalhadores da Companhia
de Gás e da Light, a companhia de energia elétrica, o que paralisou os bonés,
principal meio de transporte público, Tinha início a greve geral. Havia cerca
de 100 mil trabalhadores em greve na cidade, em um população estimada em 550
mil habitantes.
Um grupo de jornalistas
se ofereceu para intermediar as negociações entre os trabalhadores,
representados pelo CDP, e os patrões. Durante três dias – 13, 14 e 15 de julho
de 1917 – buscou-se uma solução conciliadora. Na segunda-feira, dia 16, com a
garantia de que suas principais reivindicações seriam atendidas, os
trabalhadores votaram pelo fim da greve. No dia 17, a cidade começou a voltar
ao normal, mas a experiência na capital paulista incentivou paralisações no
interior e no litoral do estado e em outras unidades da Federação. A greve
geral de 1917 mostrou que já não era possível ignorar a presença do operariado
no conjunto de forças sócias em luta no Brasil.
Oficialmente, três
pessoas morreram durante o conflito: o sapateiro Martinez, um outro operário e
uma menina vítima de bala perdida. Calcula-se, porém, que o número de mortos
tenha ficado em torno de uma dezena. (...)
* Texto na íntegra no “Dicionário
de datas da história do Brasil, Circe Bittencourt (Organizadora), Editora
Contexto, São Paulo. 2007
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