Mostrando postagens com marcador sindicalismo revolucionário. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sindicalismo revolucionário. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Os festivais operários no Rio de Janeiro pelo informativo Emecê.

A expressão “memória é luta!” cabe muito bem para a proposta do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa, situado no Rio de Janeiro.  Por meio do informativo Emecê, o NPMC realiza um importante trabalho da memória do anarquismo. A pesquisa é possível encontrar no site (aqui) e nos informativos disponibilizados para consulta virtual (aqui).


A edição de agosto de 2009 apresenta um texto sobre os festivais de arte operária nas primeiras décadas do século XX. Segundo o Emecê, os festivais realizaram ações de grande importância por meio do teatro, da música e diferentes manifestações artísticas com objetivo de formação duas gerações de militantes anarquistas e do sindicalismo revolucionário.



Clique aqui e leia o artigo completo Arte e consciência: os festivais operários no Rio de Janeiro”. 

domingo, 27 de dezembro de 2015

Comédia de um ato

A peça "Comédia de um ato" está presente na antologia Contos Anarquistas, vários autores, organizado por Arnoni Prado, Foot Hardman e Claudia Leal, lançado pela Editora Martins Fontes. A antologia apresenta contos, textos em prosa e peças curtas de teatro publicados nos jornais operários e anarquistas brasileiros, entre os anos de 1890-1935. 

Reproduzo a peça curta para estimular a leitura dos escritos das mãos de lutadores/as da classe operária. A literatura (assim como teatro, a educação, a poesia...) eram práticas fundamentais no lazer e na formação de homens e mulheres de todas as idades que não tinham acesso a educação e ao lazer na ordem capitalista do começo do século XX.


COMÉDIA EM UM ATO
GIL
O Estado está sentado em um trono feito de caveiras: empunha o açoite e tem na cabeça a metade de um boné vermelho e metade de uma coroa real. A decoração da sala é rica, mas estúpida... as paredes foram pintadas com sangue; ao pé do trono dorme um chacal que na coleira traz escrito: polícia.
Época, passada e presente.
A ação desenrola-se aqui e além.

CENA I
(O Estado só.)

Eu do alto deste trono em que me acho, empunhando o cetro que Deus me deu, dirijo ao estalido da chibata esta humanidade estúpida e imbecil que para nada mais serve, senão para trabalhar e proporcionar bem-estar a mim e aos meus satélites.

Ah! Quero desfrutá-la, quero tornar-me um Nero, um Júlio César, um Calígula, ou todos reunidos!

E quem me poderá impedir?

Pois não sou o senhor absoluto? A minha vontade não é inatacável? 

Quem é que ignora que tudo é meu, que tudo me pertence?

São meus estes montes, são minhas estas campinas, é minha aquela torrente, e é minha esta humanidade idiota com tudo quanto possui, e aqui ninguém tem o direito de viver sem o meu consentimento.

CENA II
Entra o Clero.)

ESTADO: Quem és tu, o luxuriento fantasma que assim ousas vir à minha presença? Vens de alguma orgia, nesses trajes de dançarina grega e com esse pandeiro na cabeça? Diz-me, a que sexo pertences, és homem ou mulher?

CLERO: Sou o teu braço direito. Sem o meu concurso, há muito que a tua soberania teria desaparecido, e tu para viveres terias que ir plantar batatas, como os demais.

ESTADO: Como assim? Chamo-me Estado.

CLERO: Tu governas, porém sou eu quem atrofia as consciências e que as preparar a fim que humildemente se submetam a serem governadas; para isso tenho espalhado sobre toda a superfície da terra milhões de aves negras, dignos discípulos de Loyola, os quais não obedevem senão às minhas ordens, e não fazem outra coisa a não ser catequizar a plebe para que se resigne a obedecer-te e cumprir à risca as tuas e as minhas ordens; como recompensa a essa obediência passiva, prometo-lhe a glória do além-túmulo, de onde ninguém poderá voltar reclamar coisa alguma.

E quando alguém quer interpretar as coisas diversamente do que lhes ordeno, quando ousam falar em liberdade, igualdade, o punhal do sicário ou as fogueiras do S. Ofício sabem fazê-los calar para sempre.

Tu tens a força que te garante; mas ai de ti se ela compreendesse que não tem obrigação alguma de garantir o bem-estar de outrem, em detrimento próprio; se ela pudesse perceber que, o enquanto te serve de guarda-costas, tu a exploras tanto quanto a plebe (pois que ela é composta na sua maioria de filhos do povo), abadonar-te-ia a ti e aos teus; descansa, porém, que aqui está o clero, pronto a impedir o desenvolvimento intelectual dos teus comandados.

ESTADO: E por que forma?

CLERO: Por meio das escolas das igrejas, dos missionários.
Nas escolas aproveitamos a infância que é fácil de dominar à vossa vontade: incutimos-lhe no espírito que deve obedecer a Deus, à Igreja e ao Governo e convencemo-la de que somos seus superiores, que nos deve obediência, que é por vontade de Deus que o mundo é feito assim, e que nós somos enviados para guiar a humanidade no caminho do dever a fim de que esta possa alcançar o reino do céu.

Essa infância de hoje serão os homens do amanhã que, assim preparados pelo clero, continuarão a prestar-te homenagem e a julgarem-se tuas eternas bestas de carga; para que alguém não se desvie do caminho que lhe traçamos, temos as igrejas com os respectivos confessionários, por meio dos quais sabemos tudo o que se passa e podemos mandar para a fogueira alguma ovelha que entenda pôr o rebanho a perder.

Temos também um Deus bom, justo, caridoso, infalível, que tudo vê e sabe premiar e elevar ao reino dos céus, onde tudo é música, alegria e flores, os que sofrem com resignação as misérias desta vida. Além disso, o povo está convencido de que o nosso Deus também é perveso, sanguinário, mau, dinamiteiro, eterno foguista dos caldeirões dos infernos, onde se diverte a fazer ferver os que não seguem à risca o que lhes manda a santa madre Igreja, da sou ministro pleni-potenciário, com carta-branca para, em nome de um Deus que não conheço nem desejo conhecer, podermos amordaçar as consciências, aterrorizar os francos, suplicar os sábios, estuprar menores e viver à custas de todos esses imbecis, que, com medo de ir visitar o nosso Deus foguista, fazem o que lhes mando, convencidos de ganharem o reino das glórias ou... da estupidez.

Enquanto isso, nós gozamos as delícias da terra e aspiramos a essência dessas beldades peregrinas, traídas pelos salmos cantados ao som das nossas vandálicas gargalhadas, ah! Ah! Ah! Isso até quando essas gargalhadas não se transforarem em riso macabro, enquanto as nossas caveiras não escarnecerem de nós mesmos.

CENA III
(Os mesmo e um desconhecido.)

ESTADO: Quem és tu, oh mísera lesma? Como te atreveste a sair da lama em que vegetas?

CLERO: Sim, como conseguiste vir até aqui?...

ESTADO: Sem que a chibata do mordomo te retalhasse o focinho?

CLERO: E o que é que queres?
O desconhecido fez uma reverência e inclinou-se até ficar de quatro para representar o que é.

DESCONHECIDO: Trim-blim-blim, vai, vai, vai fechar. O burro é o azar. Última quinela! Atucha*, rapaziada! Quem mais joga, menos puxa! Olha o zerinho da Santa Casa... Ninguém ganhou. Atucha de novo, que esta não prestou. Trim, blim, blim... Ao tiro americano, sistema máuser, feito! Feito o joguinho do caipira, quem mais joga menos tira... Coragem, rapaziada! Quem não ganha trepa pau da cocanha e desforra-se! Trim, blim, blim... vai, vai... Prepara... Fecha! Catatrai** fechooo!

(Dirigindo-se aos dois:)

Reverenda Santidade... Sua Excelência o Estado...

ESTADO: Quem és tu, meu arlequim?

CLERO: Quem és tu, meu arlequim?

CLERO (à parte): Quem será essa ave?

DESCONHECIDO: Ora essa! Querem ver que, apesar da minha popularidade, há quem não me conhece?

Pois eu sou o Bicho, o afamado Bicho, o digno continuador da vossa obra...

Tudo quanto tendes posto em prática não chega para reduzir à impotência os vossos súditos; isso de impostos, latim e benzeduras não chega. É necessário o joguinho do bicho; ele, sim, os depena às mil maravilhas: o bichinho impede ao povo de fazer economias, torna-o vadio, velhaco, desmoralizado, perde o crédito, finta a Deus e ao diabo, empenha e vende o que possui, e, quando mais nada tem para jogar, vai aos quintais dos vizinhos e carrega o que lé encontra: roupa, lenha, galinha, tudo lhe serve; e nesse labutar constante não tem tempo de ver o despotismo dos governos, de ver o que fazem os representantes das nações, como se executam as leis e tantas outras coisas.

Já vedes, pois, que graças ao bicho podeis dormir descansados, porque a maioria dos vossos súditos não tem tempo de sindicar o que fazeis, se está realmente separada a Igreja o que fazeis, se está realmente separada a Igreja do Estado, como é que os padres se ocupam de política, por que é que os frades não pagam impostos para darem espetáculos no meio da rua, por que há tanta miséria, por que não há trabalho, por que há tanta ladroeira nos cofres públicos e os culpados passeiam impunes, e os presos em flagrante, réus confessos, são por fim despronunciados. Podeis dormir sossegados o sono da inocência, que o Bicho dá-lhes muito que fazer sem deixar-lhes tempo de se ocuparem de vós. O que eles querem e eu também é poder jogar mesmo nas bardas da lei!

ESTADO: Bravos! Venha de lá um abraço e podes jogar à vontade.
(Abraçam-se os três.)

CENA IV
(Uma voz oculta, cantando:)

A mísera plebe morre de fome,
Por toda parte miséria e peste.
Além só se ouvem ânsias e gritos,
aqui só se vê o azul celeste.

(Com ironia:)

Oh! Torpe matéria!...
Se os triturassem qual pedra bruta
Que foco de miséria irromperia de tais almas corruptas!

(Todos, assustados:)

O que será isto?

CLERO: Ah! É a voz da igualdade que clama contra o nosso despotismo. Vamos, em campo! Todos os meios são bons para sufocá-la. Acendam as fogueiras, preparem os patíbulos!

(Todos:)

Vamos, vamos!

(Saem de braços dados.)
(A mesma voz que se afasta:)

Ah! Vida, vida, incendiada tragédia, transfigurado horror, sonho transfigurado; macabras contorções de lúgubre comédia, que um cérebro de louco houvesse imaginado.

(Desce o pano)

O Despertar, PR, ano I, nº 4, 8 out. 1904.





domingo, 19 de julho de 2015

Dossiê Malatesta

Queremos mudar radicalmente tal estado de coisas. E visto que todos estes males derivam da busca do bem-estar perseguido por cada um por si e contra todos, queremos dar-lhe uma solução, substituindo o ódio pelo amor, a concorrência pela solidariedade, a busca exclusiva do bem-estar pela cooperação, a opressão pela liberdade, a mentira religiosa e pseudocientífica pela verdade.

Errico Malatesta (Fonte aqui.)


O dia 22 de julho de 1932 foi marcado pela morte do anarquista italiano Errico Malatesta. A trajetória de vida do Malatesta foi dedicada à luta revolucionária. Viajou e lutou na Europa, no norte da África e na América Latina. O presente dossiê é uma seleção de artigos para conhecer o trabalho militante do Malatesta. 

Atividade realizada em Joinville, ano passado. Informações clique aqui

No Brasil não foi publicado livro biográfico do Malatesta. Mas é possível ler artigos biográficos que apresentam um pouco da história de vida e das visões políticas e estratégicas do companheiro de luta. Eu destaco o artigo do professor Maurício Tragtenberg, que publicou na Folha de São Paulo, no dia 16 de janeiro de 1983, o artigo "A atualidade de Errico Malatesta". Para ler clique aqui

A Organização Resistência Libertária, do Ceará, integrante da Coordenação Anarquista Brasileira, elaborou um caderno de formação política com artigos do Malatesta. Os artigos correspondem a nossa concepção de anarquismo, teoria e sindicalismo. Clique aqui para acessar o material. 

O portal Protopia oferece um banco de textos de autoria do Malatesta, basta clicar aqui. A minha sugestão é começar a leitura pelo livro "Escritos Revolucionários", clique aqui. É a obra mais indicada para conhecer a concepção de Malatesta sobre anarquismo. 

“Porém, nós anarquistas não podemos emancipar o povo, queremos que o povo se emancipe. Não acreditamos no bem que vem do alto e se impõe pela força; queremos que o novo modo de vida social surja das vísceras do povo, que corresponda ao grau de desenvolvimento alcançado pelos homens e que possa progredir na medida em que eles progridem. A nós importa, portanto, que todos os interesses e todas as opiniões encontrem em uma organização consciente a possibilidade de fazer-se valer e de influir sobre a vida coletiva em proporção a sua importância.”

Errico Malatesta (Fonte aqui.)

O companheiro e pesquisador Felipe Corrêa tem um depoimento em vídeo sobre Malatesta. O vídeo aborda dados biográficos, ambiente político, teoria social, anarquismo, ideologia e estratégia. O material discute a contribuição de Malatesta para o anarquismo especifista, que é defendido pela Coordenação Anarquista Brasileira



"Não se trata, portanto, de chegar à anarquia hoje ou amanhã, ou em dez séculos, mas caminhar rumo a anarquia hoje, amanhã e sempre." 

Errico Malatesta (Fonte aqui.)

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Lembranças de uma greve.

A postagem tem por objetivo lembrar um episódio importante dos/as oprimidos/as no mundo do trabalho nas cidades brasileiras, a greve geral de 1917. No intuito de lembrar, publico um trecho de Edgar Leueroth sobre o terrível episódio da repressão policial contra a luta da classe trabalhadora e um recorte do texto de Nicolina Luiza de Petta. 

Um relato da repressão por Edgard Leueroth, anarquista e editor do Jornal Operário A Plebe.


Edgar no dia da sua prisão na greve geral.

"O enterro dessa vitima da reação foi uma das mais impressionantes demonstrações populares até então verificadas em São Paulo. Partindo o féretro da Rua Caetano Pinto, no Brás, estendeu-se o cortejo, como um oceano humano, por toda a avenida Rangel Pestana até a então Ladeira do Carmo em caminho da Cidade, sob um silencio impressionante, que assumiu o aspecto de uma advertência. Foram percorridas as principais ruas do centro. Debalde a Policia cercava os encontros de ruas. A multidão ia rompendo todos os cordões, prosseguindo sua impetuosa marca até o cemitério. À beira da sepultura revezaram os oradores, em indignadas manifestações de repulsa à reação (…) No regresso do cemitério, uma parte da multidão reuniu-se em comício na Praça da Sé; a outra parte desceu para o Brás, até à rua Caetano Pinto, onde, em frente à casa da família do operário assassinado, foi realizado outro comício.


12 de julho de 1917 – Greve Geral no país por Nicolina Luiza de Petta. (recortes do texto original*).


No dia 12 de julho de 1917, a cidade de São Paulo parou: uma greve geral de cem mil trabalhadores paralisou o trabalho nas fábricas e transportes. Essa foi a greve de maior impacto do movimento operário no país nos primeiros anos da República. No Brasil, greve também era denominada parede, e o movimento grevista denominado paredista. O termo greve como sinônimo de paralisação do trabalho nasceu na França em referencia a Praça Grève, localizada em Paris, onde os operários desempregados reuniam-se na expectativa de serem chamados para trabalhar.

No início do século XX, crescia no Brasil a organização a mobilização dos trabalhadores com o objetivo de conquistar melhorias de vida e trabalho. Em 1903 foi criada a federação das associações de classe (posteriormente Federação Operária do rio de janeiro); em 1905, organizou-se a Federação Operária de São Paulo. Associações semelhantes foram criadas em outros estados brasileiros. Em 1906 foi realizado o 1º Congresso Operário Brasileiro. As greves tornaram-se constantes e, em alguns momentos, amplas e numerosas. Os anos de 1906, 1907, 1912 e 1913 foram de muita ação, assim como o ano de 1919. Os acontecimentos de 1917, porém, marcaram de forma mais profunda a história da luta de classes no Brasil. Esse ano foi de agitação operária, com a eclosão de greves em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraíba, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. No entanto, o movimento mais intenso nas cidades do Rio de Janeiro, então capital federal, e de São Paulo.

Um conjunto de fatores explica o clima de agitação social em 1917. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) levou à diminuição das importações e ao aumento da demanda por produtos nacionais; em 1916, as fábricas brasileiras ampliaram a produção e o número de empregos aumentou. Mas a guerra foi responsável também por um grande aumento no preço dos alimentos. Com os salários estagnados há anos, os trabalhadores não conseguiam suportar a elevação crescente do custo de vida.

Ao longo do primeiro semestre de 1917 ocorreram greves de diversas categorias, a maior parte no Rio de Janeiro. As principais reivindicações dos operários eram: aumento salarial, redução da jornada diária para oito horas, fim do trabalho noturno para mulheres e crianças, liberdade de associação e de manifestação, redução no preço dos aluguéis, melhoria dos transportes públicos.

No mês de Junho, o movimento grevista ganhou força na cidade de São Paulo com a paralisação dos operários do Cotonifício Crespi, aos quais irão se juntar, no início de julho, trabalhadores de outras fábricas têxteis e também de outros setores.


Fonte da imagem aqui.

No dia 9 de julho, segunda-feira, após um confronto com a polícia em frente à fábrica Antarctica Paulista, os operários em greve seguiram para o bairro do Brás para fazer piquete (impedir a entrada de trabalhadores que não aderiram à greve) na porta da fábrica de tecidos Mariângela. No local, cinquenta policiais a cavalo e trinta armados de fuzis tentaram dispersar a multidão; três operários ficaram feridos.

O governo determinou o fechamento da Liga Operária da Mooca, uma atuante organização operária de orientação anarquista, e da Escola Moderna, instituição de ensino libertária, onde estudavam filhos de operários. A alegação foi a de que eram locais de fomento das rebeliões.


Fonte da imagem aqui

Essas ações, vistas como arbitrariedades pelos trabalhadores aumentaram a tensão social. Como resposta, na noite do dia 9, os grevistas criaram o Comitê de Defesa Proletária (CDP), coordenado por Edgar Leuenroth, fundador do  jornal anarquista A Plebe. A orientação política predominante entre os operários em 1917 era o anarquismo. As tarefas do CDP eram difundir as reinvindicações de interesse dos grevistas.

No dia 10, o sapateiro espanhol José Iñeguez Martinez, 21 anos, baleado no confronto do dia anterior, morreu em decorrência do ferimento. O CDP decidiu fazer do enterro do trabalhador um grande movimento contra a ação violenta da polícia. Por intermédio da imprensa operária, o Comitê convocou a população a acompanhar o féretro.

José Iñeguez Martinez. Fonte da imagem aqui

Na manhã da quarta-feira, dia 11, cerca de dez mil pessoas, de acordo com o jornal operário Fanfulha, caminharam junto ao corpo do rapaz por várias ruas de São Paulo. A polícia, previamente informada do trajeto, colocou seu efetivo guardando as ruas, principalmente a Avenida Paulista, onde se localizavam os palacetes da elite paulistana. Após o enterro, o CDP conseguiu reunir cerca de três mil pessoas em um comício na Praça da Sé.

Foram registrados saques a estabelecimentos comerciais trabalhadores em greve apedrejaram fábricas e bondes e invadiram o Moinho Santista.  À tarde, empresários reunidos buscavam uma solução. Alguns, como Jorge Street, proprietário da Companhia Nacional de Tecidos de Juta, entendiam que era preciso ceder e atender parte das reivindicações; outros, como o dono do Cotonifício, Rodolfo Crespi, onde começou a greve, mostravam-se irredutíveis, acreditando que a repressão conseguiria desmobilizar os trabalhadores.

Protesto que acompanhou o corpo do operário José. Fonte da imagem aqui.

Não foi o que aconteceu. No dia 12 a cidade parou: a greve atingiu os trabalhadores da Companhia de Gás e da Light, a companhia de energia elétrica, o que paralisou os bonés, principal meio de transporte público, Tinha início a greve geral. Havia cerca de 100 mil trabalhadores em greve na cidade, em um população estimada em 550 mil habitantes.

Um grupo de jornalistas se ofereceu para intermediar as negociações entre os trabalhadores, representados pelo CDP, e os patrões. Durante três dias – 13, 14 e 15 de julho de 1917 – buscou-se uma solução conciliadora. Na segunda-feira, dia 16, com a garantia de que suas principais reivindicações seriam atendidas, os trabalhadores votaram pelo fim da greve. No dia 17, a cidade começou a voltar ao normal, mas a experiência na capital paulista incentivou paralisações no interior e no litoral do estado e em outras unidades da Federação. A greve geral de 1917 mostrou que já não era possível ignorar a presença do operariado no conjunto de forças sócias em luta no Brasil.

Oficialmente, três pessoas morreram durante o conflito: o sapateiro Martinez, um outro operário e uma menina vítima de bala perdida. Calcula-se, porém, que o número de mortos tenha ficado em torno de uma dezena. (...)



* Texto na íntegra no “Dicionário de datas da história do Brasil, Circe Bittencourt (Organizadora), Editora Contexto, São Paulo. 2007

sábado, 28 de março de 2015

É greve: as greves por imagens.

As/os trabalhadores/as em educação na rede estadual de ensino estão em greve. Pelo blog e facebook da entidade é possível acompanhar a luta da categoria. 

Em homenagem a luta das/os companheiros/as da educação, faço a postagem com imagens das classe trabalhadora em outros tempos e lugares. 

O ano de 1917 foi marcado por uma grande greve geral que mobilizou várias cidades brasileiras, inclusive trabalhadores em Joinville /SC paralisaram para reivindicar melhores condições de vida. A mobilização foi marcada por forte influência do anarquismo e do sindicalismo revolucionário. O dia 09 de julho foi marcado pelo assassinato pela polícia do companheiro sapateiro e anarquista José Martinez. A fotografia apresenta a grande manifestação dos/as trabalhadores/as pelas ruas de São Paulo.



Jules Grandjouan (França, 1875-1968) foi um artista visual ligado ao sindicalismo revolucionário no seu país de origem. Muito do seu trabalho era representativo do contexto que atuava. Ativo colaborador de diferentes revistas da sua época, como A Guerra Social, A Batalha Sindical e outras.


A entidade sindical IWW (EUA, 1905) não pode ficar de fora. Afinal, Trabalhadores Industriais do Mundo (Tradução tosca de “Industrial Workers of the World”) marcou o imaginário sindicalista com o seu gato negro. Segundo Larry Portis, “Esse felino misterioso, desde aurora dos tempos, inspirou o temor, seja por sua identificação maléfica com a feitiçaria (...). Os I.W.W. escolheram o gato negro para exibir sua vontade, sua determinação e sua rebelião: nas lutas contra os poderes estabelecidos, é preciso mostrar suas garras para ser um movimento respeitado.”



Eric Drooker (EUA,  1958) é um artista contemporâneo conhecido nos círculos de esquerda. Afinal, é comum encontrar suas ilustrações reproduzidas em artigos sobre censura X liberdade de expressão, mulheres e direito à cidade. Drooker é o cara que cuidou da ilustração do poema Uivo, do contestador beat Allen Ginsberg. No contexto do movimento OCUPPY, Drooker criou um cartaz que a IWW se prontificou em disponibilizar para baixar em vários idiomas (aqui).