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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O que a vida significa para mim - Jack London

No período de férias li alguns contos escritos por Jack London, célebre escritor e socialista dos EUA. O post de hoje é o conto "O que a vida significa para mim", publicado pela Editora Expressão Popular

O que a vida significa para mim

Jack London.

Nasci na classe trabalhadora. Cedo descobri o entusiasmo, a ambição e os ideais; e satisfazê-los tornou-se o problema da minha infância. Meu ambiente era cru, áspero e rude. Não via nenhuma perspectiva ao meu redor, por isso, o melhor era olhar para cima. Meu lugar na sociedade era nos fundos. Aqui a vida não oferecia nada, além de sordidez e miséria, tanto para o corpo como para o espírito. Por aqui corpo e espírito andavam famintos e atormentados.

Acima de mim se erguia o imenso edifício da sociedade e, em minha mente, a única saída era para cima. Logo resolvi subir. Lá em cima, os homens vestiam ternos pretos e camisas engomadas e as mulheres usavam vestidos lindos. Havia também coisas boas para comer e muita fartura. Abundância para o corpo. Depois havia as coisas do espírito. Acima de mim, eu sabia, havia despojamento do espírito, pensamentos puros e nobres e uma vida intelectual intensa. Eu conhecia tudo isto porque lera romances na biblioteca Seaside, nos quais, com exceção dos vilões e dos aventureiros, todos os homens e mulheres tinham pensamentos puros, falavam uma linguagem bonita e realizavam ações generosas. Em resumo, assim como eu aceitava o nascer do Sol, aceitava que acima de mim estava tudo o que era fino, nobre e belo, tudo o que dá decência e dignidade à vida, tudo o que faz a vida valer a pena e recompensa um homem por seu sofrimento e esforço.

Mas não é muito fácil para um homem ascender e sair da classe trabalhadora - especialmente se está cheio de ambições e ideais. Eu vivia num rancho na Califórnia, e era duro descobrir o caminho para subir. Cedo quis saber qual a taxa de juros do dinheiro aplicado, e preocupava meu cérebro de criança a compreensão das virtudes e excelências desta notável invenção do homem, os juros compostos. Mais tarde conheci os níveis de salário praticados para trabalhadores de todas as idades, e o custo de vida. Com todos estes dados, conclui que, se começasse imediatamente, trabalhasse e poupasse até os cinquenta anos, poderia parar de trabalhar e desfrutar de uma pequena porção das delícias e maravilhas que estariam a meu alcance um pouco acima na sociedade. E, claro, decidi não me casar, ao mesmo tempo em que me esquecia inteiramente de considerar esta grande causa da catástrofe no universo da classe trabalhadora - a doença.

Mas a vida que havia em mim exigia mais que uma pobre existência de restos e de escassez. Aos dez anos de idade, tornei-me jornaleiro nas ruas da cidade e descobri uma nova perspectiva. Tudo ao meu redor estava impregnado da mesma sordidez e desgraça, e acima de mim existia ainda o mesmo paraíso, esperando para ser conquistado. Mas o caminho para subir era diferente. Era o mundo dos negócios. Por que poupar meus ganhos e investir em papéis do governo quando, comprando dois jornais por cinco centavos, num piscar de olhos, podia vendê-los por dez e dobrar meu capital? O mundo dos negócios era para mim o meio de subir na vida, e eu me via como negociante quadrado e bem-sucedido.

Ai das visões! Quando tinha dezesseis anos me chamavam de “príncipe”. Este título me foi dado por uma gangue de assassinos e ladrões, que me chamavam de “O príncipe dos piratas de água doce”.

Naquele tempo eu tinha galgado o primeiro degrau no mundo dos negócios. Era um capitalista. Possuía um barco e uma tripulação completa de piratas de água doce. Tinha começado a explorar meus semelhantes. Toda uma equipe estava sob meu comando. Como capitão e dono, ficava com dois terços do dinheiro e dava à tripulação o outro terço, embora eles trabalhassem tão duro quanto eu e arriscassem tanto quanto eu suas vidas e sua liberdade.

Este degrau foi o último que subi no mundo dos negócios. Uma noite, participei de um assalto a pescadores chineses. Suas linhas e redes valiam dólares e centavos. Era um roubo, claro, mas era este precisamente o espírito do capitalista. O capitalismo toma os bens de seus semelhantes a título de reembolso, traindo a confiança ou comprando senadores e juizes de tribunais superiores. Eu era apenas mais grosseiro. Essa era a única diferença. Eu usava um revólver.

Mas, naquela noite, minha equipe agiu como aqueles incompetentes que o capitalista está acostumado a fulminar, sem dúvida porque estes incompetentes aumentam os custos e reduzem os lucros. Minha quadrilha fez as duas coisas. Por falta de cuidado, tocou fogo na vela principal, destruindo-a totalmente. Não houve lucro aquela noite, e os pescadores chineses ficaram mais ricos pelas redes e linhas que não pagamos. Eu estava arruinado, sem condições sequer de pagar sessenta e cinco dólares por uma nova vela principal. Deixei meu barco ancorado e saí num barco de piratas na baía para uma viagem de saques pelo rio Sacramento. Enquanto estava fora, outro bando de piratas da baía saqueou meu barco. Roubaram tudo, até mesmo as âncoras; e mais tarde, quando recuperei o casco abandonado, obtive apenas vinte dólares por ele. Tinha descido o primeiro degrau galgado, e nunca mais tentei o caminho dos negócios.
Desde então fui implacavelmente explorado por outros capitalistas. Tinha força física, e eles faziam dinheiro com isso enquanto que, apesar do meu esforço, eu levava uma vida banal. Fui marinheiro, estivador e grumete. Trabalhei em fábricas de enlatados, indústrias e lavanderias. Cortei grama, limpei tapetes e lavei janelas. E não ganhava nunca o produto inteiro do meu trabalho. Olhava para a filha do dono da fábrica de enlatados, em sua carruagem, e sabia que eram meus músculos que ajudavam a empurrar aquela carruagem em seus pneus de borracha. Via o filho do industrial indo para a escola e sabia que era em parte a minha força que ajudava a pagar seu vinho e suas boas amizades.

Mas não ficava ressentido com isso. Fazia parte do jogo. Eles eram a força. Muito bem, eu era forte. Podia cavar um lugar entre eles e fazer dinheiro com a força de outros homens. Não tinha medo do trabalho. E quanto mais duro, melhor, mais me agradava. Gostaria de me entregar ao trabalho, trabalhar mais do que nunca e, eventualmente, me tornar um pilar da sociedade.

E a essa altura, com a sorte que eu gostaria de ter, descobri um patrão com a mesma mentalidade. Eu estava querendo trabalhar, e ele estava mais que querendo que eu trabalhasse. Pensei que estava aprendendo um ofício. Na realidade, havia substituído dois homens. Pensei que ele estava fazendo de mim um eletricista; de fato, estava ganhando, comigo, cinquenta dólares a mais por mês. Os dois homens que eu substituíra recebiam quarenta dólares por mês cada um, enquanto eu fazia o trabalho dos dois por trinta dólares.

Este patrão me fez trabalhar até a morte. Um homem pode adorar ostras, mas ostras demais vão deixá-lo enfastiado. E assim foi comigo. O excesso de trabalho me deixou doente. Eu não queria mais ver trabalho. Abandonei o emprego. Tornei-me um vagabundo, mendigando de porta em porta, perambulando pelos Estados Unidos e suando sangue em favelas e prisões.

Eu nascera na classe operária, e agora, aos dezoito anos, estava abaixo do ponto em que tinha começado. Caíra nos porões da sociedade, jogado no subterrâneo da miséria sobre o qual não é agradável nem digno falar: estava no fosso, no abismo, no esgoto humano, no matadouro, na capela mortuária da nossa civilização. Esta é a parte do edifício social que a sociedade prefere esquecer. A falta de espaço me leva aqui a ignorá-la, e devo dizer apenas que as coisas que vi lá me deram um medo terrível.

Estava apavorado até a alma. Vi a nu a complicada civilização em que vivia. A vida era uma questão de abrigo e de comida. Para conseguir abrigo e comida os homens vendem coisas. O comerciante vende seus sapatos, o político vende seu humanismo e o representante do povo, com exceções, é claro, vende sua credibilidade, enquanto quase todos vendem sua honra. As mulheres também, nas ruas ou na sagrada relação do casamento, estão prontas a vender seus corpos. Todas as coisas são mercadorias, todas as pessoas são compradas e vendidas. A primeira coisa que o trabalhador tem para vender é a força física. A honra do operariado não tem preço no mercado. O operariado tem músculos e somente músculos para vender.

Mas há uma diferença, uma diferença vital. Sapatos, credibilidade e honra têm como se renovar. Constituem estoques imperecíveis. Mas os músculos, estes não se renovam. Quando um comerciante vende seus sapatos, repõe o estoque. Mas não há como repor o estoque de energia do trabalhador. Quanto mais vende sua força, menos sobra para si. A força física é sua única mercadoria, e a cada dia seu estoque diminui. No fim, se não morreu antes, vendeu tudo e fechou as portas. Está arruinado fisicamente e nada lhe restou senão descer aos porões da sociedade e morrer na miséria.

Aprendi, ainda, que o cérebro também é uma mercadoria, ainda que diferente dos músculos. Um vendedor do cérebro está apenas no começo quando tem cinquenta ou sessenta anos, e seus produtos atingem preços mais altos do que nunca. Mas um operário está esgotado e alquebrado com quarenta e cinco ou cinquenta anos. Eu tinha estado nos porões da sociedade e não gostava do lugar para morar. Os canos e bueiros eram insalubres e o ar, ruim para respirar. Se não podia morar no andar de luxo da sociedade, podia, pelo menos, tentar a mansarda. Ela existia, a comida lá era escassa, mas pelo menos o ar era puro. Assim, resolvi não vender mais meus músculos e me tornar um vendedor de cérebro.

Começou então uma frenética perseguição ao conhecimento. Voltei para a Califórnia e mergulhei nos livros. Como me preparava para ser um mercador da inteligência, achei que devia me aprofundar em Sociologia. Assim, eu descobri, num certo tipo de livros, formulados cientificamente, os conceitos sociológicos simples que eu tinha tentado descobrir por mim mesmo. Outras grandes mentes, antes que eu tivesse nascido, tinham elaborado tudo que eu havia pensado e muitas coisas mais. Eu descobri que era um socialista.

Os socialistas eram revolucionários, porque lutavam para derrubar a sociedade do presente e tirar dela material para construir a sociedade do futuro. Eu, também, era um socialista e revolucionário. Liguei-me a grupos de trabalhadores e intelectuais revolucionários, e pela primeira vez entrei na vida intelectual. Aí descobri mentes aguçadas e cabeças brilhantes. Encontrei cérebros fortes e atentos, além de trabalhadores calejados; pregadores de mente muito aberta em seu cristianismo para pertencer a qualquer congregação de adoradores do dinheiro; professores torturados na roda da subserviência universitária à classe dominante e dispensados porque eram ágeis com o conhecimento que se esforçavam por aplicar às questões maiores da Humanidade.

Descobri, também, uma fé calorosa no ser humano, um idealismo apaixonante, a suavidade do despojamento, renúncia e martírio - todas as esplêndidas e comoventes qualidades do espírito. Naquele meio, a vida era honesta, nobre e intensa. Naquele meio, a vida se reabilitava, tornava-se maravilhosa. E eu estava alegre por estar vivo. Mantinha contato com grandes almas que punham o corpo e o espírito acima de dólares e centavos, e para quem o gemido fraco de crianças famintas das favelas vale mais do que toda a pompa e circunstância da expansão do comércio e do império mundial. Tudo à minha volta era nobreza de propósitos e heroísmo; meus dias e noites eram de sol e de estrelas brilhantes; tudo calor e frescor, como o Santo
Graal, o próprio Graal do Cristo, o ser humano caloroso, conformado e maltratado, mas pronto para ser resgatado e salvo no final, sempre ardente e resplandecente, diante de meus olhos.

E eu, pobre tolo, julgava ser aquilo apenas uma amostra das delícias de viver que eu deveria descobrir acima de mim na sociedade. Tinha perdido muitas ilusões desde os dias em que lera os romances da biblioteca Seaside, no rancho da Califórnia. E estava destinado a perder muitas das ilusões que me restavam.

Como mercador da inteligência, fui um sucesso. A sociedade abriu suas portas para mim. Entrei direto no andar de luxo; mas meu desencanto foi rápido. Sentei-me para jantar com os senhores da sociedade e com as esposas e mulheres dos donos da sociedade. As mulheres se vestiam muito bem, admito; mas para minha ingênua surpresa percebi que eram feitas do mesmo barro que todas as outras mulheres que eu tinha conhecido lá embaixo, nos porões. A esposa do coronel e Judy O’Grady eram irmãs sob suas peles e seus vestidos.

Não foi isto, porém, mas seu materialismo, o que mais me chocou. É verdade que estas mulheres lindas, ricamente vestidas tagarelavam sobre singelos ideais e pequenos moralismos; mas, ao contrário do teor de sua conversa mole, a tônica da vida que levavam era materialista. E como eram egoístas sentimentalmente. Contribuíam de todas as formas para pequenas caridades e se informavam sobre a realidade, mas, o tempo todo, os alimentos que comiam e as belas roupas que vestiam eram comprados com os lucros manchados pelo sangue do trabalho infantil, do trabalho exaustivo e mesmo da prostituição. Quando mencionei tais fatos, esperando em minha inocência que aquelas irmãs de Judy O’Grady arrancassem fora de uma vez suas sedas e joias tingidas de sangue, ficaram furiosas e excitadas, e leram para mim pregações sobre o desperdício, a bebida e a depravação inata que causavam toda a miséria nos porões da sociedade. Quando disse que não podia perceber bem qual era a falta de economia, a intemperança e a depravação de crianças quase famintas de seis anos que faziam trabalhar doze horas por noite numa fiação de algodão sulista, aquelas irmãs de Judy O’Grady atacaram minha vida pessoal e me chamaram de “agitador” — embora isto, na verdade, reforçasse meus argumentos.

Não me dei melhor com os senhores da sociedade. Esperava encontrar homens honestos, nobres e vivos cujos ideais fossem honestos, nobres e vivos. Andei com homens que estavam nos lugares mais altos - os pregadores, os políticos, os homens de negócios, professores e editores. Comi carne com eles, tomei vinho com eles, andei de automóvel com eles e estudei com eles. É verdade, encontrei muitos que eram honestos e nobres; mas, com raras exceções, não estavam vivos. Realmente acredito que poderia contar as exceções com os dedos das minhas mãos. Quando não estavam mortos pela podridão moral, atolados na vida suja, eram apenas a morte insepulta - como múmias bem preservadas, mas não vivas. Neste sentido, poderia especialmente citar professores que conheci, homens que vivem de acordo com o decadente ideal universitário, “a perseguição sem paixão da inteligência sem paixão”.

Conheci homens que invocavam o nome do Príncipe da Paz em seus discursos contra a guerra e que botaram nas mãos dos Pinkertons rifles que abateram grevistas em suas próprias fábricas. Encontrei homens incoerentes, indignados com a brutalidade de lutas de boxe e pugilismo, e que, ao mesmo tempo, participavam da adulteração de alimentos que a cada ano matam mais bebês do que qualquer Herodes de mãos rubras jamais havia matado.

Em hotéis, clubes, casas e vagões de luxo, em cadeiras de navios a vapor, conversei com capitães de indústria e me espantou como eram pouco viajados nos domínios do intelecto. Por outro lado, descobri que sua inteligência para negócios era excepcionalmente desenvolvida. Descobri também que sua moralidade, quando há negócios envolvidos, nada vale.

O delicado, destacado e aristocrático cavalheiro era um testa de ferro de corporações que secretamente roubavam viúvas e órfãos. Este cavalheiro, que colecionava edições de luxo e era patrocinador especial da literatura, pagou chantagem a um chefão político de queixo duro e sobrancelhas escuras da máquina municipal. Este editor, que publicou propaganda de medicamentos licenciados e náo ousou divulgar a verdade em seu jornal sobre os mesmos medicamentos, com medo de perder o anunciante, me chamou de canalha demagogo porque lhe disse que sua economia política era antiquada e sua biologia, contemporânea de Plínio.
Este senador fora a ferramenta e escravo, o pequeno fantoche de uma máquina indecente e ignorante de um chefáo político; assim eram o governador e seu juiz no Tribunal de Justiça; e todos os três tinham passes para viajar de graça na estrada de ferro. Este homem, falando seriamente sobre as belezas do idealismo e a bondade de Deus, acabara de trair seus camaradas numa questão de negócios. Aquele outro, pilar da igreja e grande contribuinte de missões no exterior, obrigava as garotas de suas lojas a trabalhar dez horas por dia por um salário de fome e, portanto, encorajava diretamente a prostituição. Este homem, que dá dinheiro à universidade, comete perjúrio em tribunais por causa de dólares e centavos. E o grande magnata da estrada de ferro quebrou sua palavra de cavalheiro e cristão quando admitiu abatimentos secretos para um de dois capitães de indústria empenhados numa luta de morte.

Era a mesma coisa em todo lugar, crime e traição, traição e crime — homens que estavam vivos não eram honestos nem nobres; homens que eram honestos e nobres não estavam vivos. E havia uma grande massa sem esperanças, nem nobre nem viva, mas simplesmente honesta. Esta não podia errar, positiva ou deliberadamente; mas errava de maneira passiva e ignorante ao concordar com a imoralidade generalizada e com os lucros que ela produz. Se fosse nobre e viva, não seria ignorante, e teria se recusado a dividir os lucros do crime e da traição.

Percebi que não gostava de viver no andar de luxo da sociedade. Intelectualmente era aborrecido. Moralmente e espiritualmente, eu me sentia enojado. Lembrava-me de meus intelectuais e idealistas, meus pregadores sem hábito, professores desempregados e trabalhadores honestos com consciência de classe. Lembrava meus dias e noites de sol e estrelas brilhando, quando a vida era uma maravilha doce e selvagem, um paraíso espiritual de aventuras não-egoístas e um romance ético. E diante de mim, sempre resplandecente e excitante, vislumbrava o Sagrado.

Então, voltei à classe operária, na qual havia nascido e à qual pertencia. Não me preocupava mais em subir. O imponente edifício da sociedade não reserva delícias para mim acima da minha cabeça. São os alicerces do edifício que me interessam. Lá, contente de trabalhar, de ferramenta na mão, ombro a ombro com intelectuais, idealistas e operários com consciência de classe, reunindo uma força sólida agora para fazer mais uma vez o edifício inteiro balançar. Algum dia, quando tivermos mais mãos e alavancas para trabalhar, vamos derrubá-lo, com toda sua vida podre e sua morte insepulta, seu egoísmo monstruoso e seu materialismo estúpido. Então vamos limpar os porões e construir uma nova moradia para a espécie humana, onde não haverá andar de luxo, na qual todos os quartos serão claros e arejados, e onde o ar para respirar será limpo, nobre e vivo.

Esta é a minha perspectiva. Vejo à frente um tempo em que o homem deverá caminhar para alguma coisa mais valiosa e mais elevada que seu estômago, quando haverá maiores estímulos para levar os homens à ação do que o incentivo de hoje, que é o incentivo do estômago. Conservo minha crença na nobreza e na excelência da Humanidade. Acredito que a doçura e o despojamento espiritual vão superar a gula grosseira dos dias de hoje. E, no fim de tudo, minha fé está na classe trabalhadora. Como diz um francês: “A escada do tempo está sempre ecoando com um tamanco subindo e uma bota engraxada descendo”.  


sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

O grande jogo, de Alexander Berkman


A peça “O grande jogo”, de Alexander Berkman*, traduzida por Natalia Montebello e publicada na Revista Verve, número 14, em 2008.


Berkman e Emma Goldman em 1917


O grande jogo, de Alexander Berkman

Personagens:
Eu (industriais e capitalistas)
Você (operários)
Negra Figura (Lei)

(Abrem-se as cortinas)

Eu ― Desçam ao interior da terra. Tragam a luz o
carvão e o ouro, o ferro, a prata e as pedras preciosas.

Você ― Considere feito.

Eu ― Construam fabricas e maravilhosas ferramentas
e modelem o mundo em jubilo e beleza.

Você ― Considere feito.

Eu ― Muito bem, meus homens. Maravilhoso! Quanta
abundancia! Quantas riquezas! Todas minhas.
Algumas vozes ― Suas? Por que? Nos fizemos tudo!

(Comoção no palco)

Mais vozes (enfurecidas) ― São nossas! Nos as fizemos.

Eu ― Silencio! Eu não mandei que o fizessem?

Vozes ― Mas e nosso. Nos o fizemos.

Eu ― Chamemos a Lei!

(Entra a Negra Figura, vestida de preto, levando uma
Bíblia em uma mão, a espada desembainhada na outra.
As duas mãos com luvas)

(Um silêncio solene quando fala a Lei)

Negra Figura ― E seu. Assim está decretado. A integridade
de nossas justas e livres instituições deve ser
mantida.

(Todos reverentemente ajoelham-se diante da Negra
Figura)

(Sai a Negra Figura)

Eu (orgulhosamente jubiloso) ― E meu, por Lei.

Você ― Nos somos pobres. Nossas esposas precisam
de comida, nossas crianças tem fome.

Eu ― Eu darei a vocês as coisas de que precisam.

Você ― Nos de! Nos de!

Eu ― Em troca de mais trabalho. Venderei as coisas
que vocês fazem e lhes darei um salario por isso.

Você ― Salários! Bons salários?

Eu ― Sim, um salario justo.

Você ― Tome, tome! Um salario justo!

Eu ― Entregarei a vocês comida e roupa em troca de
seus salários.

Você ― Um amo carinhoso! Tome, pegue nossos salários!
(Eu pega os salários e entrega escassas rações de
comida)
(Você, depois de ter devorado a comida, em pé com as
mãos vazias, com semblante satisfeito)

Eu (com profunda auto-satisfacao) ― A indústria e a
economia são a coluna vertebral de nossa grande prosperidade
nacional.

Você ― Mas nos não obtivemos nada.

Eu ― Elejam-me para o ministério e aprovarei uma
lei para abrir cozinhas populares para aqueles dentre
vocês que merecerem minha generosidade.

Você ― Viva! Viva! Nosso candidato!

(Um desfile com tochas)

(Fecham-se lentamente as cortinas)

Notas:
1 The Blast, San Francisco, Estados Unidos, 29 de janeiro de 1916.

* Imigrante russo que se tornou proeminente anarquista nos EUA. Cometeu um atentado contra um industrial durante uma greve operária e passou 14 anos na prisão. Em 1919, devido a contundentes manifestações contra a guerra,foi deportado para a Rússia junto com vários anarquistas, inclusive Emma Goldman, sua companheira na vida amorosa e política. Depois de dois anos,deixaram o país e lideraram a crítica libertária aos rumos autoritários da Revolução Russa e das ações do Partido Comunista. Gravemente doente, Berkman morreu aos 66 anos, na França, em 1936.

sábado, 31 de outubro de 2015

Memórias sindicais: Mother Jones

Lendo sobre a história do sindicalismo norte-americano encontrei um artigo sobre Mother Jones. Uma mulher vibrante e lutadora que muitos/as desconhecem. Reproduzo o artigo.


Mother Jones, mãe do sindicalismo norte-americano 
(por Elliot J. Corn)
Descrição: http://www.diplomatique.org.br/interf/spacer.gif
Hoje, Mother Jones parece ter caído no esquecimento. Mas, no início do século XX, ela foi uma das mulheres mais célebres dos Estados Unidos, simbolizando o vigor do movimento operário numa época em que ainda havia um Partido Socialista no país, pelo qual se apresentavam candidatos respeitados
Descrição: http://www.diplomatique.org.br/interf/spacer.gif


“A torrente de aplausos eclodiu e se transformou em tumulto quando uma pequena mulher avançou em direção à tribuna. Com o rosto marcado pela idade, poderia ser a avó de qualquer um; porém, tratava-se da avó de centenas de milhares de mineradores... Ao escutá-la falar, compreende-se sua influência sobre essas hordas poliglotas. Ela tinha a força, o espírito e, sobretudo, a chama da indignação. Ela era o furor divino encarnado.”
´
É assim que o escritor Upton Sinclair, célebre por seu romance sobre os abatedouros de Chicago (The Jungle), descreve Mother Jones. E acrescenta: “Ela contava histórias sem fim de aventuras; das greves lideradas por ela; de seus discursos; das reuniões com os presidentes, governadores e chefes industriais; da prisão e dos campos de prisioneiros. Ela havia percorrido todo o país e, onde estivesse, o fogo do protesto se propagava no coração dos homens. Sua história é uma verdadeira odisseia de revolta”.1As palavras de Sinclair são rigorosamente exatas. Durante 25 anos, essa senhora não teve residência fixa; uma vez, diante do Congresso, explicou: “Da mesma forma que meus sapatos, meu endereço me segue por onde eu for”.

Entre os 60 e os 80 anos, Mother Jones renunciou aos amigos, à família e a seus bens para viver na estrada, com seu povo, e seguir o caminho que as lutas definissem. Esse engajamento indefectível ao lado dos trabalhadores forjou um sentimento de identificação entre os operários: além de ativista sindical ou militante política socialista, ela era considerada a “mãe” dos norte-americanos explorados.

Ao se inteirar de que Mother Jones havia sido detida novamente, um operário da Virgínia Ocidental se dirigiu ao ministro do Trabalho: “Já empunhei minha pistola três vezes durante as guerras industriais deste país e juro diante do Eterno que, se acontecer qualquer coisa com a velha Mãe, não estou nem velho nem frouxo para empunhá-la outra vez”. E A. van Tassel, trabalhador de Ohio, suplicou ao presidente Woodrow Wilson que libertasse o “anjo dos oprimidos”: “Essa bela heroína do movimento operário não cometeu nenhum crime, mas ela é assassinada lentamente ao ser punida cada vez mais por lutar, por agir, por defender a educação e para que os trabalhadores ganhem consciência de sua verdadeira posição na sociedade”, escreveu.2

Há muitos mitos ao redor de Mother Jones – e ela mesma contribuiu para a construção de alguns deles. Ela se apresentava como mais velha do que era, com o objetivo de aumentar seu caráter respeitável. Por exemplo, em sua autobiografia publicada em 1925, ela afirma ter nascido em 1° de maio de 1830, dia da festa dos trabalhadores. Mary Harris – seu verdadeiro nome – veio ao mundo de fato em agosto de 1837, em Cork, Irlanda. Durante a juventude, enfrentou a Grande Fome (1845-1849), o que obrigou sua família a migrar para a América do Norte – mais precisamente para Toronto, onde seu pai encontrou um trabalho de ferroviário e Mary aprendeu os ofícios de costureira e professora. 

Na maioridade, deixou a família e se instalou em Michigan para lecionar. Em seguida, foi para Chicago, antes de mudar-se para Memphis (Tennessee), onde se casou com um caldeireiro sindicalista, George Jones. Dessa união, nasceram quatro filhos, que faleceram junto com o marido, em 1867, durante uma epidemia de febre amarela. Mary entendeu o episódio como uma injustiça social: “As vítimas foram principalmente os pobres e os trabalhadores. Os ricos puderam deixar a cidade ou mudar-se para longe”, constatou.

Viúva, retornou a Chicago, onde trabalhou como costureira durante vinte anos. Nesse período, conheceu militantes políticos e líderes sindicais. A cidade figurava naquele momento como uma das mais radicais dos Estados Unidos, e foi em suas ruas fervilhantes que Mary descobriu seu talento de oradora e sua capacidade de mobilizar multidões.


A invenção de Mary


A dama decidiu então multiplicar seus engajamentos militantes com a organização de cursos de educação política para os trabalhadores sindicalistas, a participação na marcha de desempregados a Washington em 1894, a coordenação da ação de mineradores de antracito na Pensilvânia, entre outras iniciativas. 

Seu ato mais importante, porém, foi inventar a “Mother Jones”. Mary Harris era uma imigrante irlandesa pobre que fugiu da fome; Mary Jones, esposa de um operário, mãe de família e viúva, vivia na pobreza em Chicago; “Mother Jones” seria a “velha Mãe” da classe operária norte-americana.

Esses novos hábitos a transformaram. A nativa de Cork se recusava a ser chamada de Mary e assinava seu novo nome em todas as cartas. Mesmo os homens de negócios e os presidentes dos Estados Unidos a chamavam dessa forma. Atrás de seus velhos vestidos negros e de sua imagem de mulher virtuosa e sábia, Mother Jones dissimulava um vigor físico e oratório incrível. Percorria estradas para participar de encontros políticos, dar assistência e proferir discursos que denunciavam as leis sem limites do mercado; também ridicularizava os ricos para que o povo tomasse consciência de sua própria força e da injustiça de sua condição.

Ela se opunha ao direito de voto das mulheres − considerava-o uma mera distração burguesa − e acreditava que a atenção dispensada às questões eleitorais apenas desviava os trabalhadores dos problemas econômicos: “Os sindicatos devem mobilizar suas mulheres para os problemas da indústria. A política não é apenas empregada da indústria. Os plutocratas ocuparam suas mulheres: eles as ocupam com o voto e com a caridade”,3explica Mother Jones em sua autobiografia.

A “mulher mais perigosa da América”, segundo as palavras de um procurador da Virgínia Ocidental, resistia à polícia, aos detetives particulares, ao Exército; desafiava abertamente as ordens dos juízes, desmoralizava governadores, atacava homens de negócios. E pagou por suas audácias com muitas temporadas na prisão. Assim que saía, Mother Jones reincidia: incentivava operários a se sindicalizar e a interromper o trabalho, além de organizar manifestações com suas esposas que, munidas de vassouras e esponjas, impediam os fura-greves de penetrar nas minas. Mother Jones também colaborou com os revolucionários mexicanos instalados nos Estados Unidos, os prisioneiros políticos da Califórnia e os siderúrgicos do Centro-Oeste do país.

Entre 1890 e 1910, essa figura do movimento operário se engajou em centenas de greves – algumas particularmente violentas –, principalmente ao lado do Sindicato dos Mineiros (United Mine Workers): greve dos mineiros de cobre de Calumet, dos cervejeiros de Milwaukee, dos trabalhadores têxteis de Chicago, entre outras. Também organizou, em 1903, na Filadélfia, uma das primeiras manifestações contra o trabalho infantil; participou da fundação do Partido Socialista dos Estados Unidos em 1901 e do sindicato radical Industrial Workers of the World (IWW), em 1905.

No início do século XX, os trabalhadores norte-americanos conheceram tempos difíceis; o carvão ainda era o principal combustível e o trabalho nas minas ocupava 750 mil homens. Esses mineradores recebiam cerca de US$ 400 por ano, muitas vezes em moeda privada timbrada pela empresa, o que os forçava a viver nas vilas fundadas pelo empregador e, portanto, submetidas a seu controle. Os 500 mil siderúrgicos trabalhavam doze horas por dia, seis dias por semana. Milhões de mulheres e crianças se esgotavam nas usinas e ateliês de costura por alguns centavos.


Radicalidade apurada


Mother Jones alertava para essas condições dramáticas de existência. Em 1901, naInternational Socialist Review, ela descreveu, por exemplo, a vida numa fábrica de algodão: “Crianças de 6 ou 7 anos eram arrancadas da cama às 4h30 da manhã pelo apito do feitor. O café da manhã era singelo: café preto, um pedaço de pão mergulhado no óleo de algodão no lugar de manteiga. Em seguida, esse exército de servos – tanto os grandes como os pequenos – marchava até os muros da indústria, onde começavam a jornada às 5h30 em meio ao barulho ensurdecedor das máquinas que golpeavam essas jovens vidas durante catorze horas todos os dias”. No fim da descrição, uma constatação: “Fora a queda completa do sistema capitalista, não vejo solução possível. E acredito que um pai que vota pela perpetuação do capitalismo é tão mortal quanto se empunhasse uma pistola e assassinasse os próprios filhos”.4

Mother Jones pertence a uma época que viu nascer o socialismo de Eugene Debs e Big Bill Haywood, fundador do IWW; o anarquismo de Emma Goldman; a luta pela libertação de W. E. B. du Bois, o popular jornalista radical de Julius Wayland, editor da publicação socialista Apelo à razão. Perante o peso esmagador das empresas privadas nos Estados Unidos, as ideias desses militantes continuam atuais: mobilizar os norte-americanos por meio dos sindicatos e dos partidos políticos, passando pela rebelião aberta.

É nesse contexto de efervescência social e política que Mother Jones se engajou arduamente na “guerra dos mineradores” da Virgínia Ocidental de 1912-1913 – confronto que deixou pelo menos cinquenta mortos.5Alguns anos mais tarde, no fim da Grande Guerra, sua saúde começou a declinar, assim como suas proezas oratórias. Ela se dedicou então a escrever sua autobiografia. No dia 1° de maio de 1930, seus numerosos simpatizantes acreditaram festejar o centésimo aniversário de Mother Jones – que tinha, na realidade, 93 anos. Seis meses depois, ela faleceu.

Seus amigos a enterraram no cemitério do Sindicato dos Mineradores em Illinois, ao lado dos “militantes valentes” caídos pela causa dos trabalhadores. Milhares de pessoas se reuniram no local para escutar a oração fúnebre do reverendo John Maguire, e outras dezenas de milhares seguiram a transmissão da cerimônia pela WCKL, a rádio operária de Chicago: “Hoje, em suas magníficas mesas de mogno, bem protegidos em capitais longínquas, os proprietários de minas e os capitalistas suspiram aliviados. Hoje, nas planícies de Illinois, nas colinas e vales da Pensilvânia e da Virgínia, na Califórnia, Colorado e Colúmbia Britânica, homens fortes e mulheres esgotadas pelo trabalho derramam lágrimas amargas. A razão é a mesma: Mother Jones está morta”.6

Elliot J. Corn
Professor de história na Universidade Brown e autor de "Mother JOnes: the most dangerous woman in America ( Mother Jones: a mulher mais perigosa da América), Wang and Hill, Nova York, 2001.


1 Upton Sinclair. The coal war [A guerra do carvão]. Boulder: Colorado Associated University Press, 1976.
2 Para encontrar essas diversas cartas, cf. “General records of the department labor, 1907-1942” [Registro geral do Departamento do Trabalho], Arquivo de Chief Clerk, grupo 174, caixa 24, 16/13, e
“Conditions of coal fields in West Virginia” [Condições dos campos de carvão no Oeste da Virgínia], Administração de Arquivos e Registros Nacionais.
3 Mother Jones. The Autobiography of Mother Jones [A autobiografia de  Mother Jones]. Chicago: Charles Kerr, 1925.
4 Mother Jones. Civilization in Southern mills [Civilização nas fábricas do Sul]. International Socialist Review, Chicago, mar. 1901.
5 David A. Corbin. Life, Work, and Rebellion in the Coal Fields: The Southern West Virginia Miners, 1880-1922 [Vida, trabalho e rebelião nos campos de carvão: os mineradores do sudoeste da Virgínia]. Urbana:
University of Illinois Press, 1981.
6 Reverendo John Maguire, Panegyric to Mother Jones [Panegírico a Mother Jones], tirado do boletim semanal da Federação do Trabalho do estado de Illinois, n.16 (37), 1930.

sábado, 1 de agosto de 2015

Depois de Nina

"Escolhi refletir o tempo e as situações em que me encontro. Para mim, isso é o meu dever, e neste momento crucial de nossas vidas, quando tudo é tão desesperador, quando tenta apenas sobreviver cada dia, não tem como não se envolver. Jovens brancos e negros sabem disso, e é por isso que estão tão envolvidos com a política. Vamos modelar e dar forma a este país ou ele não será nem modelado nem receberá forma alguma.  Não se tem escolha... Como ser artista e não refletir a época?"

Nina Simone.