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domingo, 26 de julho de 2015

Programa "Propagar rebeldias" # 01

Faça de conta que você sintonizou uma rádio. No horário a programação apresenta uma seleção de punk rock, músicas carregadas de rebeldia e energia, tudo muito reto e cru. O nome do programa? Você pode chamar de “Propagar rebeldias”.


Eu vagava pelo youtube sem nenhum destino, até pintar a sugestão de ouvir a música “Valetín Alsina“, dos argentinos do Dos Minutos. A letra e a possibilidade de reunir três amigos para fazer uma versão tratando da esquerda do bairro Floresta me animaram. A versão não será uma realidade, mas a música que inspirou a ideia está aí. 

Na última semana conversei com amigos de luta sobre a Irlanda. Motivado pelo papo informal assisti dois filmes sobre os intensos conflitos e o cotidiano violento de Belfast. Belfast lembra punk rock, não é?

Nada melhor do que iniciar com um clássico que está presente em 8 de cada 10 filmes que retratam Belfast nas décadas de 1970 e 1980. 


A banda Rudi pouco conheço. Mas lendo sobre a gravadora Good Vibrations, acabei por encontrar o trio punk Rudi. Fiquei amarrando na sonoridade.

Fecho a programação com uma música para os idiotas que assumem discursos de ódio aos direitos humanos no rolê do rock local. Então, tome uma canção dos Deserdados na sua orelha.


sábado, 18 de julho de 2015

Dane-se o STAMMTISCH!!!

Cada cidade tem a classe dominante que merece. Mentira. Cada cidade tem a classe dominante de acordo com sua formação social e histórica. 

Em Joinville, se construiu um imaginário que somos uma cidade “alemã”. Por conta disso, diferentes atividades são realizadas em defesa do imaginário e pela manutenção da tradição, é claro que a classe dominante não lembra que as tradições são invenções, como disse o velho historiador “Ruberval” (como era chamado carinhosamente no corredor do Bloco A, na UNIVILLE).

Os mais velhos costumam sentar numa mesa e beber com o seu grupo seleto de amigos. Os amigos em sua maioria são brancos, de origem alemã. O evento é conhecido por STAMMTISCH. Nos últimos anos, o STAMMTISCH tomou uma proporção entre o público jovem que “se veste bem e tem poder de compra”.

O motivo do post é o STAMMTISCH da Câmara dos Dirigentes Lojistas. O STAMMTISCH é um evento que as pessoas ditas de “origem” se encontram para beber, beber e beber em via pública. O novo “caráter” do STAMMTISCH foi abraçado pelos jovens empreendedores da ACIJ, inclusive da CDL. Ou seja, são os ricos querendo bancar "de alemão". Chega a ser bizarro.

A CDL publicou o regulamento do STAMMTISCH de 2015, que acontece no mês de outubro, na rua da diversão da “playboy”. 

A cláusula 30ª diz; “Por ser evento de cultura germânica, não será permitido samba, pagode, chorinho, rock, e outros estilos que descaracterizem essa etnia.

Qual é o motivo da indignação? Vou pontuar.

  1) Em 2013, esta mesma elite atacou a luta do movimento negro. Conseguiram cancelar o dia 20 de novembro como feriado da consciência negra. Leia aqui.

   2) É a mesma elite responsável pela exploração econômica nos postos de trabalho e será a beneficiada com o projeto da Lei de Ordenamento Territorial, a LOT.

  3) A política cultural da Fundação Cultural de Joinville tem se dedicado a essa elite.


Caso eu fosse fazer a linha de DJ no "anti-STAMMTISCH", já tenho uma seleção prévia para um sonoro foda-se a classe dominante. 

Le Fly para começar em ritmo de festa transglobal radical e futebol

The Buttocks com "nein nein nein". 

Rasta Knast cantando um punk rock brasileiro.

Nena com os seus 99 balões vermelhos

Atari Teenage Riot com sua fúria do rolê eletrônico. 

Entrails Massacre para fazer a digestão.

Nada melhor do que finalizar a seleção com uma demonstração pública da desordem e caos alemão. 

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Memórias de uma falha.

Texto inspirado no post de Emanuelle Carvalho no blog Chuva Ácida. 

Entre 1997 a 2008 estive envolvido com organização de shows punk-hardcore, especialmente ligado à ética do faça você mesmo. Escrevia zines e mantinha uma pequena distribuidora local de material independentes com discos, cds, zines e livros políticos. Neste cenário tentava inserir o debate dos direitos humanos. Eu não estava sozinho, amigos e amigas pegavam juntos.


Entre algumas pessoas existia a ideia de criar uma cena com uma identidade comunitária, troca de informação, acolhimento, ativismo anti-capitalismo e música. A ideia não se concretizou.  Os shows eram temáticos, como dia mundial contra o Mc`Donalds, contra o racismo, machismo, homofobia ou contra a guerra do Iraque. Também aconteciam como um espaço de lazer e diversão. Afinal, uma parcela da juventude de classe média e trabalhadora não se encaixava pra colar na Mansão Getúlio, no Coração Melão ou na Metrô.


Na ocasião éramos atacados pelo Estado, que volta e meia fechava os locais shows por conta da falta de documentação ou por reclamações do volume do som. Os ataques também aconteciam de setores do “rock underground” que insistiam em dizer “o meu movimento é a música. foda-se a política” ou “ estes caras são bando de viados”. Estes críticos não percebiam que entre nós os preconceitos estavam presentes, assim como a prepotência e arrogância. O que nos diferenciava era que no rolê existia um ambiente arejado para debater, acusar e até mesmo julgar.



A galera cresceu, uns deixaram claro que o rolê era uma fase da juventude. Outros continuaram a ouvir a música e seguir a sua vida de adulto, também tem os que ficaram presos à imagem. Outros são uns bandos de nostálgicos de algo que não se concretizou. Não posso de esquecer os que adotaram o cinismo ou a adoração ao capital.




Volto dizer: não era um ambiente completamente arejado. No máximo era uma janela para mundo que impõe cercas. Em 2015, o que se tem é um enorme vazio para uma parcela da juventude e dos adultos que não se encaixam e não aceitam os preconceitos no “rock underground” . A falha foi não ter acumulado politicamente com intuito de realizar uma continuidade.